Quem tiver olhos para ver repara nas alterações profundas que se têm vindo a operar na chamada “comunicação social”. Ao ponto de, quantas vezes, ser preciso ter tempo e paciência para procurar notícias, ou no estrangeiro, ou em entrelinhas escondidas em recantos malditos dos jornais.
Lembram-se do clamor mediático que se erguia, até há um ano e pouco, sobre a emigração dos portugueses, a braços com a austeridade e com um governo que empurrava as pessoas para fora do país? Qualquer enfermeiro, pedreiro, doutor, que embarcasse na Portela com rumo estrangeiro era entrevistado, ocupava tempos infinitos nas televisões e nos jornais, com lacrimosas despedidas e brutais críticas políticas. Parecia que o país se despovoava, que, a breve prazo, só cá ficavam os velhos e os inúteis. Se os números do desemprego baixavam, era mentira: devia-se à emigração. Lembram-se?
Pois bem, veio a geringonça, e nunca mais houve emigração! Uma maravilha! De repente, pletóricos de confiança, de esperança, cheios de dinheiro, os portugueses ficavam, seguros, contentes e felizes, na Pátria amada. Pelo menos é o que se pode concluir do silêncio sepulcral que os meios da comunicação social dedicam ao assunto. A emigração parou, deixou de existir, já não é precisa. É o que nos querem meter na cabeça, via comunicação social, toda ela de rastos perante o poder do chamado governo.
A somar a algumas dicas de jornais ingleses, li outro dia, bem escondido num recanto de um dos nossos, que a emigração de portugueses para Angola, em 2016, foi 32% mais numerosa que em 2015. Isto com Angola em crise, em atrasos de pagamento, a construção a colapsar, etc. Nem uma palavra, nem um “estudo”, nem uma “análise “, nem uma opinião sobre o assunto. Imagine-se, se é assim para Angola o que será para a Europa. Não quero imaginar, nem há dados públicos sobre o assunto. Ou, se os há, estão escondidos nas gavetas dos media.
Não pagarei na mesma moeda dizendo que a baixa do desemprego se deve à emigração, ou à “limpeza” dos ficheiros, ou a outra coisa qualquer. Mas, se querem um aviso, convido-os a desconfiar da maior parte do que é dito e escrito neste país. Uma sujeira.
1.2.17

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