Segundo a opinião do ganhador das eleições do PSD, compete-lhe “unir” o partido, aceitando “todos” desde que sejam “leais”, “tenham bom senso”, sejam “respeitáveis”, etc.
Aí está um programa. Fica uma pergunta: quem julga? Quem dirá quem é leal, quem tem bom senso, quem é respeitável? E uma resposta: tal gente será julgada pelo dono da lealdade, do bom senso, etc., ele, Rui Rio, que é o patrão, o senhor e o juiz, quem determina o critério. É assim desde que, há dois anos, subiu ao pódio, sempre foi o primeiro e único julgador, o que classifica os bons e os maus, o que premeia uns e ostracisa outros, o que acusa quem lhe apetece de traição, desde sempre lhe competindo determinar o porquê. O critério é exclusivo: ou se habituam a ver o partido feito com o PS, a ver derrotas e mais derrotas eleitorais, a ser humilhados por centenos e costas, a ver o partido estraçalhado interna e externamente, a ver tanta e tão valorosa gente do PSD na prateleira, substituída por ignorados militantes LGBT, por gente do calibre daquela fulana conhecida pelas trafulhices que fez na ordem dos advogados, por um autarca ignorado e por tutti quanti cuja única “qualidade” visível é apoiá-lo.
Rio segue à risca a estratégia do Sócrates: é perseguido, vítima, objecto de horríveis cabalas, se alguém divide o partido – para dividir o partido chega ele – faz parte dos maus, dos que se recusam a comer o que ele serve. Os seus apaniguados são os bons, mais não fizeram nem fazem que expurgar o partido de influências perniciosas. Alguém lhe perguntou o que ia fazer com os que votaram Montenegro. A resposta foi de antologia: irá ao congresso com uma lista que ninguém que cheire a eles integrará.
Rio não só fez tudo para dividir como se propõe continuar a fazê-lo. Quem não é comigo é contra mim, como dizia Vasco Gonçalves a propósito do comunismo. E quem é contra mim está, à partida (e à chegada) condenado ao ostracismo.
Oposição, o que é isso? É prometer acordos com que sempre lhos recusou ou traíu: o seu amigo Costa. É avançar, decidido e triunfante, com os objetivos que os unem, como a regionalização. É pôr-se num cantinho à espera que a geringonça recauchutada entre em crise para se poder juntar ao Costa.
Reduzido o PSD a metade e posto ao lado do status quo, defenestrada a já reduzida nata das cabeças pensantes que por lá andavam, aí ficará ele, Rio, dono do poder absoluto, da verdade única, da razão exclusiva.
Um grande democrata!
19.1.20

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