IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


TRATAR BEM OS VELHINHOS

 

Os gerontes, tidos por preciosos pelo Estado, são objecto de várias tiradas públicas que propagandeiam o respeito por uma vida de trabalho, a consideração pela sua inatacácel dignidade, a obrigação de os acarinhar, proteger, suprir as limitações que a idade provoca, etc. e tal, patati patatá.

Há já vários anos que parece haver uma lei que confere aos maiores de 65 anos prioridade em matéria de atendimento em serviços públicos. Mentira.

Experimente, por exemplo, as finanças da Fontes Pereira de Melo, onde começa por não haver senhas prioritárias. Vá, directo, ao funcionário que trata do assunto que lá o leva, diga a idade, pedindo prioridade. Resposta: Há trezentas pessoas à espera, dezenas delas de idade. Se conseguir demonstrar que é o mais velho dos presentes, dar-lhe-ei prioridade.

Experimente. Eu já o fiz.

Experimente a loja do cidadão, onde há senha prioritária, por exemplo, nos serviços de identificação. Como há só dois tipos a tratar de tais assuntos e há oitocentas grávidas e trezentas criancinhas na bicha do CC, a própria funcionária das senhas diz: Tire uma prioritária e uma normal. Vai ver que a sua vez chega primeiro na normal. E olhe que, pelas minhas contas, pode ir almoçar a casa na calma e voltar mais tarde. Pelo andar da carruagem, não sei se o dia lhe chegará.

Experimente. Eu já o fiz.

Passe para a privada. Exemplo: a Via Verde, que tem senhas prioritárias. Tire uma. Chamam-no depressa. Todo contente, senta-se em frente do cornaca, que o olha com ar desconfiado. O que é isto de senha prioritária?  V. responde: Tenho 75 anos, quer ver o cartão do cidadão? Resposta: A idade não interessa, tem que ter deficiência, e acrecenta uma série de condições de tipo moralista-pedagógico-ordinário. V. pede o Livro de Reclamações. Olham uns para os outros como quem diz este gajo, além de velho, é parvo. Passado tempo, lá vem o livro. V. escreve o que tem a escrever, sabe que não servirá para nada, mas, no momento, descarrega a bilis. Surpreendentemente, a Via Verde manda-lhe uma carta (a ASAE deve ter mais que fazer), em que explica: a) que as empresas privadas não têm nada a ver com o assunto, mas que,   possuída de generosidade privada, a Via Verde estará disposta a considerar o assunto desde que V. seja homem para conjugar a idade com alguns sinais de de limitações físicas, auditivas, visuais, mentais ou múltiplas, mobilidade reduzida ou outros sinais físicos que evidenciem incapacidade para suportar a penosidade associada à espera. Simples, não é?

 Experimente. Eujá o fiz. Há-de vir o dia em que a Via Verde terá, à porta, um conjunto de especialistas, entre os quais médicos de várias especialidades – psicólogos, psiquiatras, otorrinos, ortopedistas, etc., a fim de atestar a sua “penosidade”. Passado o atestado, poderá então usufruir da generosidade corporativa da organização.

Estou a brincar? Não. Os tempos vieram dar-me razão, como a seguir se verá.

No fim do ano, com colaboração da imprensa, foi a geronto-comunidade informada que isso da prioridade, a partir de 1 de Janeiro, seria para respeitar no público e no privado, sob pena de pesadíssima multa, que poderia chegar aos mil euros, a favor do Estado, como é evidente.

Cheio de esperança, Janeiro chegado, aí fui eu  a um serviço público (não o citarei por medo de alguma represália), onde tirei a famosa senha. Atendido num ápice, levei uma descompostura dos diabos: Meu caro senhor, isto é um abuso. Poderei fazer o favor de o atender, mas fique sabendo que isso da idade não vale um caracol. Segundo a lei, terá que ter um atestado, devidamente autenticado,  passado pelo subdelegado de saúde da sua área de residência, referindo as suas incapacidades para a “penosidade”. Titubeei umas desculpas parvas e, rabinho entre as pernas, fui à vida.

Experimente e verá. Eu já o fiz.

 

É penoso tentar comentar estas coisas. São sinal da sociedade em que vivemos. Melhor seria não haver “privilégios” nenhuns do que envolver (pseudo)generosas intenções em burocracias, complicar em vez de simplificar, sujeitar cada um ao poder totalitário dos funcionários, transformar o evidente numa questão de papéis e/ou de apreciações doutas e irrecorríveis de quem não sombra da competência para tal, transfomar uma proclamada “justa vantagem” numa fonte de chatices, de perdas de tempo, de nervos e de vergonhas.

Repare-se que, desta vez, ainda não disse mal do chamado governo. É que o mal é endémico. Pensando melhor, não há dúvida que esta última (a da necessidade do atestado) é da cabeça privilegiada de algum geringonço…   

 

6.1.17



11 respostas a “TRATAR BEM OS VELHINHOS”

  1. Eu já tinha percebido que gostas de passar à frente dos outros!!!

  2. Avatar de daniel tecelão
    daniel tecelão

    Nunca pensei,alguma vez estar de acordo consigo.Finalmente aconteceu!!!

  3. Nunca percebi o desprezo da sociedade moderna pelos velhos. Quer dizer, percebo: como estão reformados e com os pés para a cova, são consumidores e eleitores menos interessantes do que a malta nova. O que não percebo é como a malta nova os trata assim, sabendo – ou devendo saber – que um dia também será velha. Talvez por ter crescido com os meus avós, nunca embarquei na tendência fútil e mentecapta de endeusar os “jovens” e desprezar os velhos, como se um futuro hipotético fosse de alguma forma superior a toda uma vida já vivida.O Irritado tem azar: Portugal, país atrasado, pobre e pacóvio, não é realmente para velhos. Mas no meu tempo, se eu chegar à sua idade, terá de ser. É que, pelo andar da carruagem, seremos grande parte do país.

  4. E por falar em velhos, lá se foi o “pai da democracia”. Como se previa, uma pessoa liga a TV e só dá Chulares. Vi de passagem o Eixo do Mal e o Governo Sombra, agora ao fim do dia, e foi o choradinho esperado. Isto confirma outra coisa que já se sabia: esta malta comentadeira é cúmplice da classe política. Mesmo os que nunca foram políticos. Porque dependem uns dos outros; e porque nenhum destes comentadeiros, seja a Pluma Caprichosa ou o Cabeça de Porco, o Marques Mendes ou o comuna-caviar Araújo Pereira, sabe realmente o que é fazer pela vida. Tal como o velho Chulares, sempre mamaram em alguma teta. É por isso que todos dobram a espinha a este status quo podre.

    1. oh Sr. Filipe o Sr esta fingir? 🙂 (pela 1ra vez agrada-me o seu “comment”)

    2. Tenha vergonha. Vá chamar Chulares à sua … velha mâezinha! Palermoide, imbecil e …, qual destes qualificativos dizem com a sua careta?

      1. Oh filha andas com falta de pila 🙂

        1. Não “filho”, pila tenho dado a ti

      2. Bem sei que venera o velho patife. Afinal, era o padrinho do seu querido Partido Sucateiro, o capo di tutti capi.Também sei o que lhe darei no Natal: uma cópia dos “Contos Proibidos”.

        1. O Filipe para além de parvo, dá respostas parvas.

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