Os dois anos de socrapífio consulado têm sido comemorados com uma das mais extraordinárias crises de diarreia mediática de que tenho memória. Corre graxa pelas colunas dos jornais e das televisões, a ver quem consegue melhores graças do poderoso, do inigualável Pinto de Sousa (Sócrates). Chega a haver, imagine-se, quem diga e escreva que o homem veste bem! Veja-se onde chegámos!
A oposição vai para a página oito, e está com muita sorte, que o poder é o poder, pois então!
O homenageado desdobra-se, torna-se humano, joga ao bilas com os colegas, apaixona-se por uma senhora da SIC, confessa que de engenheiro pouco tem, informa que se casou com uma senhora que se chamava Fava, que só dançou com ela no dia do casamento e que se separou dela por causa do Euro 2004 (seria por falta de dança?), que foi fiscal de obras, que não sabia nada de aritmética mas foi professor de matemática, que andou às uvas, que acampou no adro de uma capela, que se dá com intelectuais da craveira do Fernando Tordo, que o pai era do PPD (se calhar é por isso que deitou o nome dele para o caixote do lixo).
Os ministros dão entrevistas. No mesmo dia encontro – t’arrenego! -um deles (o mesmo) no Diário de Notícias e na SIC. As maravilhas socréfias envolvem-nos por todos os lados, nas capas das revistas, nos noticiários, por toda a parte. O carinho e a admiração que sentimos pelo senhor atinge cumes que só encontram paralelo (guardadas suaves distâncias, quiçá temporárias) na Coreia do Norte e em Cuba.
Entretanto, o nosso bem amado líder é promovido a chefe de todas as polícias, a comandante de todas as guardas republicanas, a condotieri de todos os espiões, a guardião de todas as fronteiras. Não mais haverá discrepâncias, multiplicidades de critérios, divergências. Tudo será controlado pelo nosso supremo dirigente. Dentro em pouco, todos teremos o cartão universal de vigilância, onde as nossas mais íntimas e pessoais características ficarão, todas, de forma indelével e exacta, ao dispor da altíssima apreciação do nosso vero educador e pai político, para que possa, docemente, tomar conta dos nossos destinos e das nossas acções.
Vivemos, ou não, no melhor dos mundos?
António Borges de Carvalho

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