Felicíssimo, o Presidente Soares decretou ontem, com o devido ponto de exclamação, “o fim do neo-liberalismo!”.
Saúde-se a coragem do homem que, anos atrás, metia “o socialismo na gaveta”. Nessa altura, quem sabe, estaria ansioso por acompanhar as reformas de Tatcher e Reagan, que deram ao nosso mundo uma era de progresso e bem-estar sem precedentes, enquanto as economias socialistas minguavam até à exaustão.
Queixa-se da “globalização neo-liberal”, que levou à emergência de novas economias e ao crescimento, também sem precedentes na nossa idade, de regiões imensas onde a miséria e a fome grassavam sem limites.
Queixa-se das desigualdades na distribuição da riqueza, e tem razão. O socialismo seria muito mais justo na distribuição da miséria.
Esquece-se de que as Fanny May e as Freddie Mac foram genial invenção da esquerda, há muitos anos, e que a “bolha” que pariu do big bang financeiro, tem origem nas políticas sociais da esquerda, há poucos anos, para conquistar o voto negro e hispânico.
Há mais razões para o que está a suceder, como é óbvio e qualquer observador independente dirá. Mas a sofreguidão socialista de aproveitar a oportunidade para demonstrar, por absurdo que seja, as suas “razões”, cega os intelectuais do género do Presidente Soares e enche-os de preocupações serôdias com o ambiente e outros temas que pareceriam merecer melhor abordagem.
Condenando, com alguma razão, o grande bode expiatório da crise, a especulação, o Presidente Soares não hesita em rever-se nas sábias palavras do senhor Soros, sem dúvida o maior especulador de todos os tempos. E, apesar de reconhecer que o economista de esquerda que ganhou o prémio Nobel da economia (como se isso fosse um maior dos avais ás suas ideias) aplaudiu as medidas tomadas pelos governos ocidentais, o Presidente Soares descobre que “não chega”. Pois não. O problema não é esse, mas sim o de evitar o aproveitamento das circunstâncias para lançar algum “paradigma” socialista!
O Presidente Soares premeia com o desprezo do silêncio as diligências e movimentações que, com uma velocidade espantosa, procuram um acordo global.
O que importa, como ele diz, é que, a 4 de Novembro, se abram novos mundos ao mundo com a luz intensa que Obama lhe trará. Assim, para o Presidente Soares, a partir de Janeiro (quando o homem tomar posse), as coisas começarão a melhorar. O que até lá se fizer não passará de uma manobra dos “neo-liberais” para segurar o sistema.
Não se lembra, porque para ele o importante não é resolver problemas mas aproveitar para virar à esquerda, que, se nada se fizer até lá, em vez de recessão teremos depressão.
António Borges de Carvalho

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