IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


SAUDADES DA UNIÃO SOVIÉTICA

Nos idos da perestroika – andava o tovarich Gorbacthev a braços com o evidente colapso da economia planificada – o IRRITADO passou uma semana em Moscovo.

Pasmado, assistiu à abertura do primeiro MacDonalds da URSS. Numa enorme praça apinhava-se uma monumental bicha de gente, em espiral – uns trinta de largura -, esperando pacientemente a enorme felicidade de comer um gorduroso hamburger. Um espectáculo verdadeiramente espantoso para um ocidental a quem, apesar de viver num país cheio de problemas, jamais seria dado pensar na simples possibilidade de estar dez horas ou mais (houve quem fizesse as contas) à espera de tal coisa.

Mas não era tudo. Por exemplo, lá no hotel onde, miseravelmente, o IRRITADO comia – quase não havia restaurantes – o camarada de serviço, a quem tratávamos por Jerónimo, além de servir à mesa, trabalhava em câmbios. Quem quisesse rublos metia uma nota de dez dólares dentro do guardanapo, chamava o Jerónimo, dizia-lhe que queria outro e, minutos depois, ele trazia um guardanapo lavadinho, dentro do qual vinha uma quantidade enorme dos ditos rublos.

Os taxistas que, sem excepção, vendiam caviar a 5 dólares a lata, levavam, por tabela, cinco rublos por uma corrida. Outros pediam cinco dólares, o que sugnificava que a tal corrida tanto podia custar 5 dólares como 5 cêntimos, ou menos.

O IRERITADO quis ir ao Bolchoi. Não havia bilhetes. Com uma nota de cinco dólares (seria a tabela geral?) instalou-se confortavelmente num camarote onde, sózinho, assistiu ao Evgueni. Porreiro pá.

No dia em que vínhamos embora, um amigo, de idade avançada, foi objecto de uma paradigmática cena. Depois de fazer as malas, chamou a mulherzinha das limpezas e deu lhe o molho de rublos que ainda tinha no bolso e que já não lhe serviam para nada. A funcionária, agradecida, fechou a porta do quarto e começou, sorridente, a despir-se.

Para telefonar para casa impunha-se ir à recepção do hotel e marcar uma chamada. A menina dizia que amanhã, pelas 19 horas, a tal chamada iria directamente parar ao quarto do requerente. No dia seguinte, à hora aprazada, o citado estava, ansioso, metido no quarto. Às 20, desesperado, voltava à recepção, a fim de protestar. Ao que a menina de serviço respondia que a chamada tinha sido pedida pela sua colega da véspra, pelo que não sabia de nada. Nos dias seguintes, a mesma coisa: a menina marcava a chamada para uma hora em que já lá não estivesse, ou coisa assim. Ao quinto dia, através de um “amigo”, presume-se que do KGB, o IRRITADO lá conseguiu falar com a família. Foi então informado sobre a situação das meninas da recepção: cada uma trabalhava 24 horas seguidas, uma vez por semana. Estavam todas “empregadas”, 7 para um posto, ou dois, ou três, de trabalho. Nenhuma era responsável pelo que, na véspera, a colega tinha feito. Normal. Era o pleno emprego versão soviética.

*

A que propósito, perguntar-se-á, vem o IRRITADO, em 2015, chatear as pessoas com estas memórias?

Explicação: é por causa do Syrisa.

O camarada Vrofokakis, ou lá o que é, resolveu readmitir todos os funcionários públicos que tinham sido dispensados. Óptimo para os funcionários, quer fossem precisos quer não. Pleno emprego! Depois, ou antes, o mesmo Croposapoulos, ou lá o que é, decidiu readmitir 600 tarefeiras da limpeza que tinham sido corridas do ministério. Porreiro pá, pelo menos para as senhoras em causa. Ao mesmo tempo, despedia um número indeterminado de técnicos. Porreiro pá, para a propaganda do Syrisa, nada porreiro pá para os técnicos.

Estas corajosas medidas merecem algum esforço de “análise”. Se as mulheres da limpeza são necessárias, imagine-se o estado de imundície em que o ministério se encontrava, há meses sem ter quem o limpasse. Mas, e se o ministério não estava porco? Então para que se readmite as mulheres da limpeza? Pleno emprego, meus amigos, quer dizer, emprego soviético. E os técnicos? Ou eram precisos e foram mal corridos, como as mulheres da limpeza na hipótese um, ou não eram precisos e não se compreende: se as mulheres da limpeza, na hipótese dois, foram readmitidas sem ser precisas, porque raio hão-de os técnicos não precisos ser corridos? Há pleno emprego soviético para umas e não há pleno emprego soviético para outros?

A explicação é simples. As senhoras da limpeza são trabalhadoras e, em princípio, de esquerda; os técnicos são burgueses e, se calhar, são do centro (da direita não, que é sócia).

Não é só o pelo emprego soviético, é também justiça do mesmo nome. A Martins, o Tavares, o Pacheco, a Draga, o Jerónimo e o Costa aplaudem freneticamente.

 

30.1.15

 

António Borges de Carvalho



4 respostas a “SAUDADES DA UNIÃO SOVIÉTICA”

  1. Avatar de Ui! Tanto medo!
    Ui! Tanto medo!

    Afirma o irritadiço que “Varoufakis… tem três estrelas Michelin em omeletes sem ovos e o Nobel da geometria em quadraturas do círculo”.Pois bem, Pedro Passos Coelho tem cinco estrelas Michelin em pudim de Abade de Priscos “sem gorduras” (do Estado) e o Nobel da economia por conseguir “estabilizar” o défice cumprindo odas as promessas eleitorais que que fez.Tá a ver, irritadiço? O “nosso” herói é MAIOR (leia, como complemento, mentiroso).

  2. Avatar de Farto de mentirosos
    Farto de mentirosos

    Acerca de quem andou nos caminhos da “perestroika”:«Dezenas de analfabetos que gostam de se dar ares fizeram um escândalo com o aparente excesso de erros de ortografia, pontuação e sintaxe dos 2490 professores que se apresentaram à “Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades” (PACC). Deus lhes dê juízo. Para começar, não há em Portugal uma ortografia estabelecida pelo uso ou pela autoridade. Antes do acordo com o Brasil – um inqualificável gesto de servilismo e de ganância –, já era tudo uma confusão. Hoje, mesmo nos jornais, muita gente se sente obrigada a declarar que espécie de ortografia escolheu. Pior ainda, as regras de pontuação e de sintaxe variam de tal maneira que se tornaram largamente arbitrárias. Já para não falar na redundância e na impropriedade da língua pública que por aí se usa, nas legendas da televisão, que transformaram o português numa caricatura de si próprio; ou na importação sistemática de anglicismos, derivados do “baixo” inglês da economia e de Bruxelas. De qualquer maneira, a pergunta da PACC em que os professores mais falharam acabou por ser a seguinte: “O seleccionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol (para que seria?). Destes 17 jogadores, 6 ficarão no banco como suplentes. Supondo que o seleccionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, poderemos afirmar que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes (é inferior, superior ou igual) ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos.” Excepto se a palavra “grupo” designar um conceito matemático universalmente conhecido, a pergunta não faz sentido. Grupos de quê? De jogadores de ataque, de médios, de defesas? Grupos dos que jogam no estrangeiro e dos que, por acaso, jogam aqui? Não se sabe e não existe maneira de descobrir ou de responder. O dr. Crato perdeu a cabeça. Na terceira pergunta em que os professores mais falharam, o dr. Crato agarrou nas considerações tristemente acéfalas de um cavalheiro americano sobre “impressão e fabrico” de livros. Esse cavalheiro pensa que há “livros em que a beleza é um desiderato” (ou seja, a beleza do objecto) e outros “em que o encanto não é factor de importância material” (em inglês, “material” não significa o que o autor da PACC manifestamente julga). E o homenzinho acrescenta pressurosamente: “Quando tentamos uma classificação, a distinção parece assentar entre uma obra útil e uma obra de arte literária”. A obra de arte pede beleza ao tipógrafo (ao tipógrafo?), a obra útil só pede “legibilidade e comodidade de consulta”. Perante este extraordinário cretinismo, a PACC exige que os professores digam se o “excerto” “ilustra” os dois termos de uma comparação, o primeiro, o segundo ou nenhum deles. Uma pessoa pasma como indivíduos com tão pouca educação e tão pouca inteligência se atrevem a “avaliar” alguém.» Vasco Pulido Valente, Público

    1. Não sei o que é que isto tem a ver com o assunto do post. V. aproveitou para fazer a sua propaganda oposicionista à custa do VPC. Estará no seu direito. O VPC diz preto num dia e branco no outro. É giro, mas às vezes exagera na sua superioridade. Mas, se formos à gramática, já o homem não tem razão nenhuma. Estou de acordo com a crítica dele às charadas da prova, ao acordo ortográfico, aos erros diários nos jornais e nas televisões. Professores analfabrutos é o que há mais por aí. As avaliações são indispensáveis, já que há oportunidade de escolher os menos maus. O resto é conversa de quem está e estará sempre contra tudo e mais alguma coisa.

  3. Vivi situações parecidas noutros países a leste, bem depois da Perestroika. Mas os russos são um caso à parte. Após conhecer alguns russos, os alemães começaram a parecer-me um povo descontraído, espontâneo e caloroso. Nem sequer os finlandeses, geralmente soturnos e regularmente enfrascados, me pareceram tão estranhos como os russos. Há ali uma tragédia permanente, uma dureza de carácter, um “pathos” que não se explica só com comunistas e czares. São gente difícil, complicada. Que as coisas na Rússia funcionem mal, que sejamos mal atendidos, não espanta. Dá a impressão que se não formos espancados, já vamos com sorte. Quanto às misérias e absurdos dos ontens que cantavam, tem razão, e essa medida do Tripas parece clara como lama. Já em Portugal é muito diferente, claro: os funcionários não são escolhidos por ideologia, mas sim por cunha. Primos e afilhados são um critério bem mais democrático. Isso nos tachitos, claro. Nos tachos e tachões, vale o cartão rosinha ou laranja.

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