Um realizador brasileiro, célebre por ter dirigido “O Fiel Jardineiro”, adaptação do romance do mesmo nome de John le Carré, apresentou em Cannes a obra Blindness, baseada no livro de Saramago que tem o título “Ensaio Sobre a Cegueira”.
Segundo os jornais, a crítica recebeu a coisa “gelidamente”. Os espectadores, embatucados e sonolentos, não bateram uma palma que fosse. Em suma, um flop.
O realizador faz jus a altos créditos, a actriz principal é “oscarizável”. Parece que os demais, bem como a fotografia, a música, os settings, etc. também são bons.
Então porque carga de água é que não houve uma só voz que viesse “gabar” a excelência da coisa?
Um amigo que anda nas andanças de Cannes disse-me hoje pelo telefone que, acima de tudo, o filme foi considerado uma chatice monumental. Não, não porque o assunto é deprimente, não porque a história é pessimista, não. O filme é, simplesmente, chato. Não há outra explicação. Todas as qualidades que possa ter são subsumidas pela chatice visceral, indisfarçável, inevitável da coisa. O problema não vem do realizador, do produtor, do adaptador, do encenador, dos actores, dos músicos, dos electricistas… o problema é ser humanamente impossível usar textos de Saramago sem cair num oceano de chatice.
Li, com hercúleo esforço, o “Memorial do Convento”. A ideia é interessante, o português podia ser pior, as personagens são bem achadas, a intriga não é estúpida. Mas o livro é de uma chatice inultrapassável.
Empurrado pela propaganda, fui ler o “Ensaio Sobre a Cegueira”. Fiz das tripas coração e consegui chegar ao fim. Queria saber qual era a “tese”. Porque uma coisa pomposamente chamada “ensaio” tem que ter uma “mensagem”, apontar para uma conclusão, melhor, tirar uma conclusão. Como sou estúpido, por mais que esmiuçasse a coisa, não consegui lá chegar. Se algum objectivo subjaz à escrita daquela coisa, é esta: o autor odeia a humanidade, e dedica a sua vida, o seu prolixíssimo talento, a chatear as pessoas. O êxito que tem, concedo, deve dar-lhe um gozo infinito.
Mesmo assim, com mais um ciclópico esforço, ainda me pus a pensar que, como o homem é marxista-leninista-estalinista-comunista-PC-saneador de reaccionários-etc, a sua intenção seria demonstrar que, como os povos são ignorantes, estúpidos, analfabrutos (os cegos), terão que se deixar guiar pelas vanguardas iluminadas (a fulana que não era cega) que lhe apontam o caminho dos amanhãs que cantam.
Mas agora, pelas descrições dos intelectuais de serviço, vejo que a intenção não era essa.
Fica a tese da chatice. Os tipos, lá em Cannes, é que não foram na conversa. O tipo é um chato, e acabou-se. Não leva palmas. Flops.
Que diabo, por muita influência esquerdóide e muitos lóbis que por lá haja, aquilo não é a academia dos vikings que, por dever de ofício, vai dando umas nuns cravos, outras numas ferraduras.
Bem feita. O Saramago que vá chatear o raio que o parta.
António Borges de Carvalho

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