“Respeitai a velhice!”, diziam os soldados das negregadas guerras de África aos recém chegados, apelidados de “maçaricos”. Na tropa, como se sabe “a antiguidade é um posto”. Nas universidades, vetustas tradições consagravam o “poder” dos decanos e dos “dux”. Em sociedades pouco desenvolvidas, ainda hoje o chefe político é chamado “o mais velho”, mesmo não o sendo.
Atribui-se, ou atribuía-se, à idade, à experiência, a vivências várias que só ela proporciona, uma dose de sabedoria que é, ou era, um capital precioso para as sociedades e que merece, ou merecia, o respeito das gentes. A idade não é, ou não era, tida por travão do progresso, mas serve, ou servia, para dar a tal progresso o bom senso e o capital de experiência que as novidades, muitas vezes, não trazem consigo.
Os tempos, porém, apontam noutro sentido. A “juventude” passou a valorar-se como um bem em si, despido de adjectivos ou limites, e a considerar os mais velhos como membros de um “parque jurássico” que só existe por favor dos “novos”, já que, na verdade, foi consumido, abolido, derrogado, pelo inexorável passar das eras. É assim que os partidos políticos, por exemplo, dão às suas juventudes um poder que estão longe de merecer, é assim que, nas empresas, os mais novos se sentem no direito de empurrar os mais velhos pela porta fora, muitas vezes com consequências devastadoras, é assim que a sociedade em geral tende a considerar os mais velhos como um fardo que, caridosamente – ou “solidariamante”, como se diz agora – se carrega até que faça o favor de morrer, e quanto mais depressa melhor. É assim que, nas escolas, a “juventude” passou a ser tida e achada para as mais ínfimas decisões e para a mais alta “gestão”.
Os desiquilíbrios sociais disto resultantes, e as suas consequências, assumem muitas vezes formas chocantes, impedindo que a condução das tarefas e dos negócios se desenvolva com harmonia, eficácia, e respeito pelos valores e objectivos das sociedades humanas que disto são vítimas.
Vem isto a propósito do nóvel “deputado” do Bloco de Esquerda, fulano que ninguém elegeu, mas que o abuso da lei das substituições que a organização pratica acabou por sentar nos bancos do Parlamento.
Aí está o rapaz, barbicha rala, camisoleca às riscas, capuz, jeans, despenteado artístico, a perorar contra as “fatiotas”, a dizer que o Parlamento não tem nada a ver com o povo, que não serve para nada, que é preciso dar cabo daquela inútil excrescência onde um bando de velhos bem vestidos se repoltreia, etc. Propõe-se o rapazola dar cabo daquilo tudo, e substituir a coisa por um novo bando, esse sem gravata, sem frases respeitosas, sem regras, sem peias, sem moral, só preocupado com as questões que verdadeiramente interessam, sejam elas quais forem.
Compreende-se que o Bloco de Esquerda lá ponha o fulano, como o PC lá pôs aquele tipo que expressamente declara admirar esse grande democrata que dá pelo nome de Kim Sung Il. É que, como se devia saber, o que tais organizações mais odeiam e sonham abolir, ainda que o não declarem, é a chamada democracia representativa, formal, ou burguesa, como lhe chamam, ou seja, a Democracia tout court.
Ainda há quem pense assim. E, para dar sinal disso, nada melhor que a “irreverência da juventude”, a “frontalidade da juventude”, a fim de, resguardando os insinceros líderes, vir dizer as “verdades” deles, assim fazendo passar o ódio à liberdade como se de nobre objectivo juvenil se tratasse, contra a “ditadura” dos velhos, dos tipos das “fatiotas” e, obviamante, do sistema.
António Borges de Carvalho

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