– Há mais de um ano, irritado com um produto que não prestava e que o vendedor não queria substituir, pedi o livro de reclamações, extraordinária benesse que o governo põe à disposição do consumidor. Lá exarei a minha queixa, com todos os detalhes. Os tipos acabaram por substituir a coisa por outra que também não funcionava e que guardo religiosamente, à espera de melhores dias, isto é, à espera que alguém (quem?) dê seguimento à dita reclamação.
– Uma senhora (Rosa Maria Reis, de seu nome) a quem venderam, num restaurante, comida ordinária, teve que chamar a polícia para que lhe dessem o livro de reclamações. Irritada, terá feito uma enorme barulheira, por não lho darem, a bem.
O resultado final desta cena foi que:
a) À queixa, escrita no livro de reclamações em 19 de Julho de 2005, não foi dado pelas autoridades (quem?) qualquer espécie de seguimento;
b) A dona Rosa Maria foi condenada, pelo Tribunal da Relação do Porto, a pagar 300 euros de indemnização ao restaurante, e apanhou 75 dias de prisão remíveis a multa de 15 euros por dia.
Moral destas histórias:
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O livro de reclamações, brilhante invenção do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) quando era ministro do consumidor, não serve para nada;
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Os comerciantes que se recusam a facultar o livro de reclamações, a bem, aos seus clientes, são uns heróis;
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Quem usar o livro de reclamações do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), está tramado: não só não vê qualquer resultado directo da reclamação como se sujeita a ser preso, condenado, multado, chateado, aborrecido e tido por criminoso pelos doutos tribunais da piolheira;
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Esta obra do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) é como as outras: ou não funciona ou funciona mal;
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Em Portugal, a começar pelas Finanças e a acabar nas tascas, quem reclamar f…-se, perdão, lixa-se.
No antigamente, quem não andasse, em política, disciplinadinho e arrumadinho, tinha que se haver com o estado autoritário. De resto, andava-se mais ou menos à vontade. Hoje, em política, pode-se ser desarrumado. No resto, nem pensar: disciplinadinho, arrumadinho, carneirinho, desgraçadinho, caladinho. E, no que à política diz respeito, as coisas já estiveram mais longe do antigamente. Obra do senhor Pinto de Sousa (Sócrates).
Para arquivo.
António Borges de Carvalho

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