Nunca fui adepto de Mário Soares. Assisto ao seu fim com a pena que se tem dos que se vão da Terra.
Dos muitos defeitos que se lhe podem assacar, um não teve: o de não defender a democracia ou de não distinguir os que nela acreditam dos que a odeiam.
Parece que, nos seus últimos anos, o seu amor pela Liberdade não foi, por ele, defendido da melhor maneira. Lembro os seus últimos artigos de opinião, recheados de malquerença e de conceitos erróneos. Lembro a insensatez da sua candidatura presidencial. Coisas que a idade justificará, por muito que custe a gregos e a troianos.
A sua última glória, quanto a mim, foi a de jamais ter entrado no coro da geringonça. Dirão os adeptos dela que foi a idade que o tolheu. Direi eu que foi o desgosto de ver a sua criação (o PS) mancomunada com inimigos, confessos e inconfessos, do essencial da sua vida e dos valores que sempre defendeu. Calculo o que foi, para Soares, vê-la nascer e prosperar. Neste sentido, pode dizer-se que, moral, intelectual e politicamente, foi a geringonça que o matou.
Soares nunca acreditou nas virtudes da propalada “maioria de esquerda”. Opôs-se ao conceito, porque a essa “maioria” pertenciam os inimigos da Liberdade. Coligou-se com o CDS, mais tarde com o PSD. Com este, afrontou a crise financeira, aguentou o odioso, e tant bien que mal, saíu dela.
Nunca lhe terá passado pela cabeça uma aliança como a que o seu partido fez, traindo-o e às suas mais profundas convicções. Por isso que, às portas da morte, o IRRITADO o homenageie, esquecendo tê-lo considerado sempre um adversário, por ser socialista, não por ter, oportunisticamente, pisado os valores fundamentais em que acreditava – coisa que nunca fez.
30.12.16

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