Num (péssimo) almoço no “Madeirense” das Amoreiras, já há uns anos, dizia-me o António Lobo Antunes que isto de vender livros tem mais a ver com os públicos que os compram que com o seu conteúdo, a sua qualidade, o que neles se escreve ou o que se quer dizer com eles.
Para ilustrar a asserção, exemplificou consigo mesmo e com uma “rapariga” que vende que se farta. Os livros dela e os dele nada, absolutamente nada, têm a ver uns com os outros, ainda que ambos se vendam bem.
Eu, que não sabia quem era a tal rapariga, não disse nada por vergonha de mostrar ignorância em relação a um tal êxito literário.
É claro que assim saí do “Madeirense” fui a correr à livraria e comprei um livro da “rapariga”. Queria resolver o mistério. Li-o de ponta à ponta com muito interesse. Da leitura tirei três conclusões, a) o êxito da obra era compreensível, b) o António tinha razão e c) nunca mais gastaria um chavo nem um minuto com a literatura da pequena.
Anos passados, apareceu o jornal “Sol”. A tal rapariga tem duas colunas em página ímpar todas as semanas. Pelos títulos, percebe-se que se trata de variegadas lucubrações sexo-sociais mais ou menos primitivas, produzidas por quem não deve pensar noutra coisa.
Costumo passar adiante. Esta semana, excitou-me o lead da coisa, a saber: O sexo oral de homem para mulher também requer rodagem, treino e alguns truques. E precisa de abertura cultural para ser praticado.
O lead, como se pode compreender, dispensa a leitura do texto. Ficamos a perceber que aquilo a que tantos nomes se chama – não estou contra – não passa, afinal, de uma questão de cultura. E de abertura, por supuesto.
Além disso, quem quiser fazer a coisa como deve ser terá, antes de mais, que a praticar com afinco e galhardia, a fim de ter uma rodagem apropriada, feita de aturado e adequado treino. Depois, deverá familiarizar-se com alguns truques, sendo, neste aspecto, de pedir conselho a quem sabe tudo e mais alguma coisa a tal respeito. Será de consultar a rapariga.
O IRRITADO recomenda vivamente à senhora ministra da educação que integre uma sebenta da autoria da pequena no currículo da nova disciplina de educação sexual, indispensável acréscimo de “cultura” muito do agrado do senhor Pinto de Sousa em particular e do socialismo em geral.
13.9.10
António Borges de Carvalho

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