Os franceses – e nós com eles – estão metidos numa camisa de onze varas.
Parece que o camarada Hollande vai ganhar. Na sua esclarecida boca uma panóplia de impossíveis, a fazer lembrar as patacoadas do nosso saudoso Pinto de Sousa, com quem, sabe-se lá, é capaz de se ter aconselhado no suave remanso da Rue Lauriston. É evidente que o fulano se dedicará a chatear meio mundo, a arruinar ainda mais a França e a faltar a todas e cada uma das promessas que anda a agitar com o seu arzinho de flor de estufa.
E se ganhasse o Nicolau? O homem deixou-se arrastar nos malabarismos das estatísticas e das contas de somir do adversário e, dizem os comentadores de serviço, perdeu o debate. O homem, com os seus defeitos, é mais pessoa humana, mais normal que o delicodoce Hollandócrates. Mas não vai lá. E, se fosse, ganhar-se-ia com isso? Não interessa. É história.
Quanto aos rapapés à dona Martine, ficaram empatados. A necessidade é muita, a dona Martine, horrível fascista, meteu-os no bolso.
O problema é que a História não tem nada a ver com as histórias que contam. A História mostra que a França está, como todos nós, a caminho da ruína, que o socialismo está exangue, que a sociedade está anestesiada pelos hábitos de encosto que meteram na pele das gentes ao longo dos anos em que, servindo-se do Estado liberal, se dedicaram acondenar o liberalismo. Comunistas, socialistas democráticos, sociais-democratas, democratas cristãos, todos do mesmo lado, todos fervorosos inimigos do liberalismo, trataram, ao longo de quase setenta anos, de dar cabo da responsabilidade individual, de convencer as pessoas que têm o problema resolvido, que ganharão a vida façam o que fizerem, tudo isto mascarado e vendido como “direitos sociais”, a banha da cobra dos nossos tempos. O figurino foi mais ou menos o mesmo, as nuances serviram de raminho de salsa. Quando, por via tecnológica, chegou a globalização, ninguém percebeu o que se estava a passar. Adeus indústria, que coisas pesadas não são para europeu, adeus agricultura, que só vale alguma coisa à custa de subsídios, adeus pescas, que isso vai contra as espécies, e por aí fora. Em meia dúzia de anos, os BRICS aprenderam tecnologia, o dinheiro emigrou e, enquanto a Europa estrebucha e outros gozam as maravilhas que a Europa inventou, ainda andam por cá os hollandócrates & Cª a dizer que vão salvar o estado social (entre nós inventado pelo Prof. Marcello Caetano!).
A oposição ao status quo é ocupada pelos que outra coisa não querem senão defender o staus quo, mesmo sabendo que o status quo tem os dias contados. Receitas revolucionárias, todas socialistas, da dona Marine ao canalha Otelo, há muitas por aí.
A revolução útil, a que poderia acender uma lamparinazinha na escuridão, seria a revolução liberal, o Estado de direito propriamente dito.
Nada disto se avizinha. O que vem aí é o Hollandócrates no seu pior, que melhor não tem. Ou, por milagre, o peripatético Nicolau. Tanto faz. O futuro é negro e não há lamparina nenhuma.
3.5.12
António Borges de Carvalho

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