A dona Ana Gomes anda completamente desvairada – desvairada anda sempre, completamente é que não – com as bocas do senhor Gama na pérola do Atlântico. Diz que se trata de humor negro. Diz que o homem perdeu a cabeça.
Afinal, o que o senhor Gama disse foi que o senhor Jardim era um político combativo e que tinha origem democrática, duas verdades verdadinhas, absolutamente incontroversas.
A dona Ana Gomes, na distinta companhia da dona Edite, entrou em histérico parafuso, como é aliás seu nobre hábito. Que interessa a verdade se a verdade não interessa?
O pobre senhor Gama chegou à Madeira e viu o que toda a gente vê, até a dona Ana Gomes. Não resistiu e reflectiu a verdade em palavras. A dona Ana Gomes não é, porém, de verdades propriamente ditas. Verdade é o que interessa, o que não interessa não pode sê-lo, nem se deve falar nisso.
A coisa propagou-se. Inúmeros membros do partido socialista que temos entraram no baile da dona Ana. O histerismo tem sido devastador. As hostes tremem, escandalizadas, ofendidas, com os mais íntimos pelinhos a eriçar-se. Então o senhor Gama não sabe que é proibido ver o que é verdade, e que muito mais proibido é dizer o que se vê, caso tal não seja conveniente para as hostes? Não sabe que a filosofia socrélfia impõe que só se veja o que, independentemente de ser verdade ou mentira, interessa ao social-cretinismo em vigor?
O senhor Gama ou é um idiota, ou ainda não percebeu que as águas em que navega estão eutrofizadas.
António Borges de Carvalho

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