O IRRITADO pede desculpa por voltar à estúpida história das polícias secretas.
Correm por aí rios de tinta. Só o Expresso – quem havia de ser? – traz três páginas mais meia primeira página. É obra!
Aí vai:
1.
Havia um jornalista que espiava os espiões. Os espiões espiaram o jornalista. O jornalista tem o direito de espiar os espiões mas os espiões não têm o direito de espiar os jornalistas.
2.
Há um jornal que entrou da correspondência electrónica privada de um jornalista de outro jornal, que a escarrapachou na primeira página, assim dando um fôlego extra ao partido que protege e o protege para ganhar as eleições. Os espiões não têm o direito de se servir da correspondência (uma factura enviada pelo correio ou pela Net, não exactamente correspondência). O tal jornal tem o direito de espiar, os espiões não.
3.
Há o Expresso, que tem o direito de comprar aos respectivos ladrões e publicar correspondência oficial reservada. Os espiões não têm o direito de aceder às facturas das telecomunicações.
4.
Havia (há?) uns russos que queriam fazer negócios com uma empresa portuguesa. Não se sabe se eram mafiosos ou não, mas pareceria legítimo que os serviços secretos informassem a empresa sobre tais desconhecidos. Não é legítimo. Se as máfias russas cá viessem por via de tal gente, os serviços secretos seriam chamados à pedra por, sabendo, ter ficado calados. Mas não tinham o direito de avisar.
5.
Há o chefe dos espiões, o tal que prestou as informações, que se demite e se passa para a empresa informada. Não tem o direito, nem de dar informações, nem de mudar de emprego, nem de tratar da vidinha.
6.
Há um ilustre capitão de Abril que, sendo chefe da fiscalização dos espiões, declara que as informações dadas à empresa em causa não tinham nada a ver com segredos de Estado nem faziam mal a ninguém… mas não deviam ter sido dadas. Está no seu direito.
7.
Há um emérito professor que, depois de ter tido as mesmas funções do capitão de Abril, foi para o tribunal dizer que não o tinham deixado fiscalizar coisa nenhuma. Manteve-se no lugar até o deixarem e tratou de mandar aos jornais todo o seu judicial palavreado. Com todo o direito.
8.
Há um tipo que mandou investigar o marido da mulher que já não era dele. Nem ele tem o direito de saber seja o que for em tal matéria, muito menos têm os espiões o direito de lhe prestar serviços.
9.
Há um Primeiro-Ministro que, apertado pelas manchetes, decide inquirir. Está no seu direito. Depois, não comunica aos jornalistas os resultados da inquirição, alegando segredo de Estado. Não está no seu direito de negar aos jornalistas seja o que for, muito menos segredos de Estado.
10.
Há um jornal que, andando à rasca com falta de massa, despede pessoal e se mete em alhadas judicias com a empresa a quem o espião-mor “terá dado” informações. Está no seu direito de se servir das suas próprias páginas para destruir inimigo, mesmo que as suas guerras empresariais não interessem a ninguém.
Em conclusão:
a) Vão todos vender chuchas.
b) Não chateiem mais o pagode com estas trapalhices.
c) São tão bons os acusadores como os acusados.
4.9.11
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário