Em tempos idos, os professores dos liceus eram licenciados que faziam umas cadeiras a mais, as chamadas “pedagógicas”. As licenciaturas, por seu lado, eram, no mínimo, de 4 anos.
A chamada democratização do ensino trouxe ao universo escolar, e ainda bem, muito mais alunos. Isto obrigou a recrutar professores de forma mais expedita. As licenciaturas passaram a ser mais curtas e a poder ser interrompidas ao fim de dois anos, seguindo-se uma coisa a que, salvo erro, se deu o nome de “via do ensino”. A preparação para a universidade, por seu lado perdeu qualidade e, em consequência, também os cursos. Uma verdadeira diarreia de opções inundou o ensino universitário, muitas delas totalmente desfasadas de qualquer lógica e de qualquer futuro ou empregabilidade. O sistema, pela negativa, perdeu qualidade. Pela positiva, muito aumentou a literacia.
Depois, do numerus clausus de há uns anos, passou-se rapidamente à carência, não de oferta, mas de procura de ensino.
As consequências da evolução dos costumes, potenciada pelo Estado com a facilitação do divórcio, a não necessidade de registo das uniões, os incentivos ao aborto e tantas outras “medidas”, bem como a desvalorização do conceito de família levada a extremos da mais radical insensatez, contribuíram para inchar a tendência egoísta dos tempos modernos e a irresponsabilidade social galopante, pondo a procriação em plano menor.
Passadas quase duas décadas deste tipo de políticas e de ideias “modernistas”, as suas consequências fazem-se sentir com brutalidade. A procura de ensino emagrece todos os dias. Se não há procura, para que servem tantos professores, tantos funcionários, tantas escolas – incluindo as fruto das loucuras do último governo. Para que serve um sistema dimensionado para uma sociedade que já não existe?
Vem isto a propósito das declarações do Primeiro-Ministro sobre o futuro sombrio dos professores desnecessários. Mais ou menos assim: reciclem-se ou emigrem, não faltam ofertas de emprego nos países em crescimento demográfico. À primeira vista, parece que Passos Coelho está a correr com as pessoas, a confessar algum falhanço, a desrespeitar os cidadãos e o país, que é o que por aí se badala. Não está. Está a ser realista, a dar um sinal de bom senso, a apontar um caminho, a dar bons conselhos, a dizer a verdade, por dura que ela seja. O que podem fazer pessoas de cultura média e muitas vezes indiferenciada ao ponto de não ser útil a ninguém em Portugal? Têm que procurar mercados onde as suas aptidões tenham procura. Se tiverem coragem, diga-se sem crueldade nem desprezo, acabam por agradecer à crise o êxito na vida, como tem acontecido com tantos milhões de portugueses.
É pena? Claro que é. É duro? Evidentemente.
Mas não se pode, ou não se devia poder, levar a mal que o PM diga a verdade ou aponte soluções.
Não foi ele quem criou a situação. É ele quem está a tentar ultrapassá-la.
19.12.11
António Borges de Carvalho

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