O IRRITADO não tem por hábito ter contactos com o “Expresso” on line. Empurrado para lá, dá com estes mimos informativos:
Título: “Confrontos em São Bento fazem onze feridos”.
Mais abaixo: “segundo a PSP, onze pessoas ficaram feridas, dez das quais agentes”.
E ainda: “Os manifestantes atiraram pedras, garrafas e outros objectos contra a polícia. Foi esta a razão que, segundo a polícia, levou à detenção de um manifestante”.
Apetece dizer no coments. Mas é demais. Para quem lê só o título, a “notícia” diz que a polícia feriu onze manifestantes. Para quem for mais abaixo, verifica que, afinal, era só um. Os outros feridos eram polícias. Mas, atenção! Isto é “segundo a polícia”. Sabe-se lá se é verdade! E mais: parecendo certo que os manifestantes atacaram os polícias à pedrada e não só, como se pode imaginar que a polícia tenha tido a lata de prender um manifestante? E, mesmo assim, tal detenção é também “segundo a polícia”. Alguém acredita?
Se o “Expresso” não fosse um jornal inteligente, culto, sério, etc. teria escrito a verdade, sendo que a verdade segundo o “Expresso” é mais ou menos como segue:
Um vasto grupo de cidadãos exemplares, indignados com a presente situação, foi protestar à porta da residência do PM. Este, em tremurenta manifestação de medo do justo encontro popular e do povo em geral, fez-se proteger por inumerável contingente de polícia de choque, armada até aos dentes. Uma vez que alguns manifestantes, no exercício da sua justa fúria, atiraram alguns inofensivos objectos às forças policiais, estas reagiram com a usual brutalidade, tendo causado onze feridos. Vários manifestantes foram molestados, dizendo agora a polícia que foi só um.
É isto o que o “Expresso” diz. De forma sibilina, nas entre linhas, talvez no legítimo uso daquela espécie de publicidade dissimulada em que é especialista. Parabéns.
17.10.12
António Borges de Carvalho
E:T: No tempo da II República, contava-se uma anedota mais ou menos assim:
No jardim zoológico, um leão comeu um funcionário da limpeza.
O “Times” noticiou: Em Lisboa, a falta de segurança no jardim zoológico local levou a que um empregado fosse comido por um leão.
O “Diário da Manhã” escreveu: Um pobre leão, barbaramente atacado por um notório comunista, reagiu em conformidade, tendo acabado por ser abatido por alguns elementos da célula do atacante.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Lá bem no fundo, a deontologia é de natureza paralela. Sendo paralela, a de hoje não se cruza com a de ontem, mas, no fundo no fundo…

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