IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


DA VIDA DE CADA UM

 

Tudo o que fazemos, ou deixamos de fazer, tem consequências, boas ou más. Se um cidadão andar a carregar baldes de cimento e der nas vistas ao seu supervisor, é natural que passe à frente de terceiros no seu caminho até pedreiro; e se, como pedreiro, for apreciado, é natural que alguém o contrate para chefe de pedreiros, e assim por diante. O mesmo com a diligente secretária, a quem o chefe proporciona a frequência de cursos de qualificação que, step by step, com muito e bom trabalho, a levem a posições de relevo. Ou com um rapazito dos recados (conheço pelo menos um) que venha a ser economista de topo numa grande empresa. Há quem construa um futuro brilhante, há quem não o consiga, não queira, ou não tenha para tal as necessárias qualidades. Não pode é andar entretido com horários de trabalho e sindicatos, pelo menos na opinião do IRRITADO.

En tudo isto há também sorte, ou a falta dela, há os acasos desta vida, há coisas que umas vezes empurram para cima, outras não. C’est le vie, como diria Lapalice. E há também as pessoas que cada um vai conhecendo ao longo da vida e que, para bem ou para mal, vão abrindo ou fechando oportunidades.

Nunca me fez qualquer espécie de confusão a história, tão miseravelmente glosada, dos políticos que, saindo da política, passam para cargos importantes na esfera privada. A “opinião” condena, por um lado, que alguém seja político profissional, às vezes sem outras qualificações que não sejam as que a tal levam. A mesma “opinião” inverte razões e entra em fúria quando alguém, saído da política, arranja algum emprego daqueles que fazem boa inveja a uns, má inveja a outros – quase todos.

Se um médico que foi ministro da saúde voltar à profissão e dirigir um grande hospital privado, que mal há nisso? Devia ir engraxar sapatos no Rossio? Se um engenheiro que foi ministro das obras públicas ingressar numa grande construtora, onde está a indecência?

A “opinião” instalada inverte o ónus da prova todos os dias. Parte do princípio de que vão entrar na venda de influências, em cambões, em cartéis, e são condenados na praça pública, não por ter prevaricado mas porque é “da natureza das coisas”. Substitui-se a justiça por processos de intenção.

Vem isto a propósito da recente nomeação do senhor Barroso para semi-chefe de um influente banco, uma máquina de fazer dinheiro – no nosso caso, até tem que o criar, já que, só o BES, lhe ferrou uma pantufada de 900 milhões. Barroso, com mais ou menos merecimento, gerou um capital pessoal tido por útil ao novo patrão.

Ninguém, incluindo este escrevinhador, terá qualquer sombra de simpatia pelo homem, um tipo desagradável, antipático, supremamente convencido, mais preocupado consigo que com seja o que for. Por uma questão de bom senso, não devia ter aceite a função. Por um lado, sabia a tempestade opinadora que iria desencadear, por outro não precisava daquilo para nada, vistas as inumeráveis mordomias, merecidas ou não, que já lhe tinham sido oferecidas e sido aceites.

Para nós, será sempre o homem do “choque fiscal” – que falhou rotundamente – e o do abandono do cargo para que foi por nós eleito. Foi também o homem que arrostou com a crise europeia sem que se lhe tenha ficado a dever algum rasgo de génio. Não passou de chefe de uma colossal burocracia, sem que se lhe tenha ficado a dever reforma alguma.

Não há que dar a Barroso os parabéns por mais esta promoção. Mas também não haverá que aproveitar para mais uma tempestade mediática, ora feita de alguma razão, ora de puro despeito.

 

12.6.16      



8 respostas a “DA VIDA DE CADA UM”

  1. Gostei dos baldes de cimento: um preâmbulo adequadíssimo ao tema do post. Ser pedreiro, secretária, presidente da Comissão Europeia, chairman da Goldman Sachs… é realmente tudo parecido. Tudo suor e mérito, né?Francamente, Irritado.A ida do ex-presidente da CE para a mais poderosa máfia do planeta fala por si: nem vale a pena acrescentar nada; apenas atirar-lhe à cara, pela milésima vez, a evidência de quem manda nisto tudo.O facto de esse ex-presidente ser o Mordomo Burroso, campeão da mediocridade, da chulice e da sabujice cultivadas na Tugalândia e exportadas para uma União de pulhas, também dispensa comentário. Recordo-lhe apenas o feito mais célebre do Mordomo: a cimeira dos Açores. A par do outro pulha, o Blair, a cimeira da vergonha.Falar disto é chover no molhado; resta o seu argumento, aliás usado também pelo Burroso: que os políticos, coitadinhos, são presos por ter cão e por não ter. Se ficam pela política são criticados. Se vão para o privado são criticados. Tadinhos! Que hão-de fazer?Para começar, podiam ter um trabalho – não é um emprego; é um trabalho – antes da política. Isso ajudava. Mas são todos políticos de carreira, ou advogados chulões, ou doutores da mula ruça, ou “gestores” abridores de portas como o seu Passos.E depois da política podiam – imagine – ir trabalhar. Não é para tachões não-executivos, não é para prémios descarados nos mamões que beneficiaram, não é chupar na máfia banqueira… era mesmo TRABALHAR. Já imaginou a loucura?Falar mal dos políticos, no plural, não é generalizar. É como constatar que todos os peixes têm guelras.E é tempo de o Irritado admitir que a política não é um sacrifício; não é um “desafio” como tanto gostam de dizer; não é uma espécie de serviço cívico, como se intui das suas fantasias. A política é chulice e trampolim. É o bilhete para uma vidinha garantida e impune. É o triunfo da escumalha.

  2. Sr. Filipe a política é apenas a gestão do todo, do grupo, do estado ao serviço do detentor do poder – em democracia o Povo. Aqueles que servem o Povo devem ser íntegros enquanto lá estão e depois quando saem.O Dr. Durão Barroso disse ter o direito. Falso! A integridade não se legisla. O Dr. Barroso não é nem nunca foi íntegro. Nunca serviu o seu Povo, nem tão pouco honrou os compromissos que com ele assumiu.O sr. Irritado está sempre a favor do indivíduo mesmo que esse indivíduo deixe muito a desejar e utilize o Povo ignorante como seu trampolim. É um grande democrata.

    1. O problema, Sr. Picaroto, começa precisamente aí: em servir os cidadãos.Estes políticos não se sentem servidores. Sentem-se senhores. Basta ver a naturalidade com que esperam – exigem! – regalias e privilégios acima de qualquer cidadão. Privilégios como carrões de 100.000€ com motorista, a vidinha repimpada, as subvenções vitalícias, as decisões que tomam com o nosso dinheiro sem nos perguntar nada, ou a total impunidade dessas decisões. E nós, enquanto sociedade, aceitamos estes privilégios. E colaboramos, nem que seja tacitamente, com esta democracia invertida: nós os servidores, eles os senhores.Daí a posição do Irritado, que até é monárquico: limita-se a estar, como quase sempre, do lado dos senhores.

      1. Sr. Filipe, nessa questão de o sr. Irritado ser monárquico não estou de acordo consigo. Penso muitas vezes que se houvesse uma pessoa depositária do poder do Povo, da autoridade, com uma família na qual as famílias se revissem talvez que as coisas funcionassem melhor.Submeter-se a uma entidade abstracta á qual se entrega a soberania é difícil. Ainda existem muitos que confundem povo com populaça. A figura do Bordalo é terrível. O Estado Novo teve muito cuidado em definir e caracterizar o conceito de Nação e depois martelar para as pessoas: «A Bem da Nação»; «Tudo pela Nação, nada contra a Nação»; etc.; etc.As repúblicas não ensinam nada às monarquias. Falo das europeias. Penso até que tem muito a aprender.

        1. Tantos palermas!

          1.  Anónimo concordo 100%

        2. Embora não defenda esta república, Sr. Picaroto, também não posso aceitar a monarquia.É um sistema intrinsecamente injusto, nepotista, que infantiliza ainda mais o cidadão. É um pouco como comparar a ciência à religião. Para um crente é simples: Deus fez tudo, manda em tudo, é a explicação de tudo. Quando morrer vai para o Céu. Já a ciência requer esforço, tira-nos as certezas, cria-nos dúvida em vez de nos tranquilizar. Mas sem essa dúvida, sem esse esforço permanente, hoje ainda éramos servos a viver em palhotas.A monarquia é também um retrocesso. Como alguém aqui escreveu há 3 anos: Estávamos ao nível da Suécia… com os camponeses analfabetos a tirar o barrete à passagem de suas Exas os condes ou marqueses. Era uma maravilha!

          1. Não arme em ignorante. Fica-lhe mal.

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