IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


DA TURQUIA

Como é sabido, a democracia turca e o laicismo republicano foram revolucionariamente instituídos sob a direcção do senhor Mustafá Kemal, depois Atatürk (pai da Turquia). Mas este senhor sabia o que estava a fazer, isto é, sabia que a democracia e o laicismo não correspondiam à tradição, não estavam enraizados na maioria do povo turco. Por isso, fabricou uma solução castrense, deu às forças amadas o papel de guardiãs do respeito por tais valores. Foi assim que, a certa altura (fim da década de 70) as tais forças armadas suspenderam a democracia com a finalidade de a preservar. Foi assim que, nos anos 90, evitaram que um partido religioso tomasse o poder em Istambul.

É evidente que, para os puristas da democracia liberal do ocidente, este tipo de poder armado sobreposto aos resultados de eleições é coisa inaceitável, para não dizer condenável. Esta situação levantava importantes resistências à entrada da Turquia na UE, aliada, é bom não esquecer, ao facto de a Turquia, com os seus 80 milhões de pessoas em imparável progressão numérica, viria a ter mais deputados, mais funcionários, mais isto e mais aquilo que… a Alemanha, por exemplo. Assim, a adesão, contra o parecer e os desejos dos kemalistas, foi sendo adiada. E assim também, a “vigilância” militar enfraqueceu, o partido islamita acabou por subir ao poder chefiado por um tipo pouco aconselhável o qual, ainda por cima, teve a sorte de apanhar o país em franco crescimento económico. O resultado está à vista: os generais democratas estão na cadeia, os juízes dominados, as leis alteradas à vontade do chefe, o sonho de Mustafá Kemal no caixote do lixo.

A Europa perdeu um aliado de peso porque teve pruridos ideológicos, a julgar que a Turquia era um país como os demais, não uma terra de vasta influência religiosa. A NATO já não sabe ao certo se pode contar com a Turquia, um país cuja força militar, na Europa, só terá paralelo no Reino Unido.

É nisto que estamos. A Turquia caminha a passos largos para uma ditadura violenta. O seu papel estabilizador no médio oriente deixou de estabilizar fosse o que fosse. As tergiversações militares são o prato do dia.

Haverá saída? É bom não esquecer no que deram, ou no que continuam a dar, as “primaveras árabes”. Às vezes, um bocadinho de bom senso e uma pitada de “realpolitik”, fazem imenso jeito…

 

14.1.15

 

António Borges de Carvalho



5 respostas a “DA TURQUIA”

  1. A questão de fundo não será: a Turquia não é, e nunca foi, Europa? Bem sei que a finança e a realpolitik têm a sua própria lógica, mas que diabo, qualquer dia a União EUROPEIA inclui a Austrália ou o Japão…

    1. A ideia do post não era dizer que a Turquia é um país europeu, era mostrar que a adesão teria contribuido para a estabilização de uma zona muito perigosa para a Europa. Os factos vieram demonstrá-lo da pior maneira.

    2. A ideia do post não era dizer que a Turquia é um país europeu, era mostrar que a adesão teria contribuido para a estabilização de uma zona muito perigosa para a Europa. Os factos vieram demonstrá-lo da pior maneira.

      1. Entendo, mas suponha que um dia a adesão de Singapura, ou do Burkina Faso, também contribuía para a estabilização doutra coisa qualquer. Se entrasse a Turquia, por que não entraria Israel? Até já entra nas competições desportivas europeias. E por aí fora. Que países não-europeus sejam parceiros ou membros especiais, só para certas coisas, ainda vá. Mais que isso é abandalhar o conceito da UE, que, parece-me, já está abandalhado o suficiente…

        1. È capaz de ter razão…

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