Qualquer coisa se passa em Portugal que escapa à capacidade de compreensão do IRRITADO.
Temos, segundo os números oficiais, 15% de desempregados. A juventude é a “classe” mais atingida pelo flagelo. Quem tem emprego no Estado, ou quem dele depende mesmo não tendo sido seu funcionário, viu cortados dois meses de rendimento. Quem trabalha viu os impostos aumentar. Diz-se que, na saúde, as coisas não estão a melhorar. Os tipos de educação acham que está tudo mal (esses estarão sempre contra tudo e mais alguma coisa), etc.
Dir-se-ia que a contestação aumentaria e assumiria formas e acções cada vez mais fortes e números cada vez mais impressionantes. Os sociólogos, psicólogos, politólogos, estatisticólogos e outros ólogos esgrimiriam as mais rebuscadas explicações para o fenómeno, todas elas levando ao mesmo: a troica, a austeridade, a injustiça, o governo…
E, no entanto, passa-se exactamente o contrário. Os sindicatos cada vez têm menos adesão às suas convocatórias. O PC viu-se obrigado a mudar de tática e a mandar fazer umas coisitas pontuais, tipo anarca, com meia dúzia de “combatentes” amestrados. O BE não mobiliza seja quem for. O PS não existe. Os indignados zangaram-se uns com os outros e desapareceram do mapa. Os desempregados, na melhor hipótese dos próprios, juntaram 500 protestantes. Os campistas da dona Roseta foram para a praia. E por aí fora.
Os sociólogos, psicólogos, politólogos, estatisticólogos e outros ólogos andam à nora para explicar o que se passa. Os canhenhos da academia e da demagogia devem ser omissos na matéria.
Longe do IRRITADO atrever-se a “analisar” os acontecimentos ou não acontecimentos. Longe do IRRITADO tentar menosprezar o drama de tantos portugueses a quem a crise atinge de forma injusta e violenta. Longe do IRRITADO atribuir o que constata a qualquer coisa tipo “nossos brandos costumes”. Longe do IRRITADO dizer que tudo se deve à excelência do governo.
Não tão longe do IRRITADO pensar que a generalidade das pessoas já percebeu que não é na rua que contribuirá para o fim do sofrimento geral, que não é o governo que, sem mudança da política europeia, poderá aliviar as condições em que se vive, que a vida, por muito bem que tudo venha a correr, não voltará a ser o que era.
Ou será cansaço, desistência, acomodação?
Onde está a democracia “participativa”? Onde os movimentos “sociais”? Onde a influência arrebatadora das mesnadas de intelectuais, demagogos, ecologistas, esquerdistas et alia que por aí vegetam?
Será que os portugueses perceberam que a democracia liberal – a única que existe – com todos os seus defeitos, falhas, omissões e injustiças, ainda é o menos pior dos sistemas?
O IRRITADO não sabe as respostas para estas questões. Vai pensando no assunto, e é tudo.
3.7.12
António Borges de Carvalho

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