IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


DA PRESIDENCIAL COMPLICAÇÃO

 

A propóstito do aniversário da presidência de Cavaco Silva tem-se ouvido os mais extraordinários disparates.

Para o efeito deste post, não interessa saber se o mandato tem sido positivo ou negativo. Para o IRRITADO, que não é admirador de Cavaco Silva, ainda menos dos seus antecessores, importante será pensar no que é o presidente da Republica em Portugal, se é que se trata de alguma coisa que se possa definir.

 

A discussão a que recorrentemente assistimos sempre que há uma eleição presidencial, sobre o que é ou deixa de ser o cargo, é mais que esclarecedora a este respeito: revela que ninguém sabe nem deixa de saber o que faz um senhor que somos obrigados a eleger sem saber para quê.  Ao certo, sabe-se que vai ocupar um Palácio Real, ter um numeroso staff, ganhar umas massas (não muitas) e que tudo isto, mais a eleição, mais a reforma, custa à Nação um ror de dinheiro. O PR, em Portugal, não tem poder mas tem poder. Não manda, mas quer mandar. Há quem ache que devia fazer mais, como quem diga o contrário. A discussão nunca terá fim.

 

Não há é quem ponha o dedo na ferida, quem se atreva a dizer que o rei vai nu, que o sistema não presta, não funciona, e será sempre, em vez do factor de união que há quem veja no chamado Chefe de Estado, uma fonte de quesílias, pasto ideal de discussão para demagogos, “constitucionalistas”, comentadores e oportunistas.

Na Europa que nos é próxima, todos os regimes são parlamentares e bi-camerais. Um único regime há que se intitula “semi-presidencial”, e onde o PR é eleito por sufrágio universal: o francês. Em França, o Presidente é o verdadeiro chefe do governo e o representante formal e executivo do país em política externa e de defesa. A V República, criada à imagem e semelhança de De Gaule, destinava-se a fazer do Presidente o chefe político número 1, mesmo nos raros casos de “cohabitação”.  As coisas são claras q.b..

Entre nós, elege-se um PR directamente, mas o poder não lhe pertence. É do parlamento e, por incumbência parlamentar, do governo. O presidente, expressamente, tem como único poder efectivo a bomba atómica da dissolução do parlamento, entendida esta de utilização em circunstâncias especialíssimas. De resto, goza de poderes meramente formais. Ninguém de boa fé duvida que Sampaio se armou em comandante militar, dando conteúdo político a uma função formal, e dissolveu o parlamento através de um indiscutível golpe de Estado constitucional, isto é, usou um poder de que dispunha em oposição radical ao espírito e à letra da Constituição. Mesmo quem defenda as razões que para tal alegou não pode deixar de ver que se tratou de evidentes abusos.

Depois, há inacreditável falácia do “presidente de todos os portugueses”. O PR é Presidente da República e nada mais. Tal falácia leva, por extensão, a que se julgue o Presidente como alguém “independente” “apartidário”, “árbitro”, etc. Ora alguém que é eleito por um lado do eleitorado contra o outro, jamais é, nem é desejável que seja nada disso, em abono do bom funcionamento das instituições.

A “independência” presidencial levou a que tenhamos tido um presidente militar que se opôs a todos os governos, dois  presidentes civis claramente contrários aos governos (desde que não fossem socialistas…), e um, o actual, que, depois de aturar até à exaustão os desmandos do senhor Pinto de Sousa, tem, recentemente, dado uma no cravo outra na ferradura. É, apesar disso, quase universalmente acusado de estar “feito” com o governo! Como se, sendo verdade, não fosse a mais elementar obrigação do Presidente apoiar o governo que o povo elegeu! Num sistema minimamente são não pode haver legitimidades concorrentes ou contraditórias.

 

A estúpida originalidade do nosso sistema tem terríveis consequências no funcionamento das instituções. Mas isto, até entre aquela gente que passa a vida a louvar o que se passa “lá fora”, não faz parte do debate.

 

24.1.14

 

António Borges de Carvalho



5 respostas a “DA PRESIDENCIAL COMPLICAÇÃO”

  1. Sustenta que o PR tem «a obrigação de apoiar o governo que o povo elegeu». Dois problemas: 1. Só uma pequena parte do “povo” elege esta cambada. 2. Esquendo esse detalhe, por que é a sua lógica não há-de valer para Cavaco, quando apoiou/encobriu o governo do ingenheiro relativo? Não era o governo eleito? Quanto ao terrível «golpe de estado» do Sampaio, que gosta tanto de evocar, mais dois problemas: 3. NINGUÉM elegeu o seu caro Santana. 4. Quando foi a eleições, o seu caro Santana levou uma tareia – comprovando que o “povo” NÃO o queria lá. Não acha que devia haver, sei lá, um limite para a incoerência?

    1. Filipe Bastos: gosto especialmente da segunda parte do seu comentário O nosso irritado esta sempre a pôr-se a jeito para lhe lembrarem a sua fraqueza santanista, como se PSL fosse um politico de primeira linha. Cpt , RD

      1. Avatar de XXI (militante PSD)
        XXI (militante PSD)

        Caro Rui, Pedro Santana Lopes, como Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, não tem ordenado. Aliás, ele próprio foi pródigo em publicitar que exercia tal cargo sem remuneração, quiçá para “transmitir” a ideia de ser um altruísta de “meia tigela”.Com efeito, sendo essa uma verdade formal, a verdade substancial é que usufrui de um cartão (para além de outras mordomias ligadas ao cargo) que “paga” todos os seus gastos ilimitadamente.Assim, terei de discordar de si, porquanto PSL é um politico de “primeira linha”. Isto é, daqueles que, na primeira linha, arruinaram o País.

    2. Se há abstenção é porque os cidadãos são livres de votar ou não votar, sujeitando-se voluntariamente à vontade dos demais. O remédio seria o voto obrigatório.2. O PR aguentou o governo do Pinto de Sousa por respeito institucional, que faz parte das suas obrigações.é claro que os seus interesses politico-pessoais não terão sido alheios, mas isso é outra história. 3. O Santana foi eleito.Não foi o primeiro, mas o segundo. O primeiro foi-se embora, subiu o segundo. Nada Mais normal.4. Perdeu as eleições a seguir. Quem não as perderia, depois das perseguições de que foi alvo, e sem ter tido um mínimo de tempo para mostrar o que valia ou não valia.Quanto à sua última frase, não enfio a carapuça.

      1. Há abstenção por apatia, e porque grande parte das pessoas não se revê nestes partidos e nestes políticos. Sujeitam-se assim à vontade da carneirada que ainda vota, devido às regras obsoletas e viciadas desta partidocracia. 2. Ou seja, a sua lógica acaba por desculpar o comportamento da Múmia durante o ruinoso governo anterior. V. chama-lhe «respeito institucional»; eu chamo-lhe omissão deliberada e criminosa. 3. O primeiro fugiu para um mega-tacho, cuspindo na vontade dos seus eleitores, e negligenciando uma situação que dizia gravíssima – o célebre discurso do “país de tanga”. Ninguém votou no segundo. 4. Perdeu as eleições porque não convence ninguém a não ser fanáticos laranjinhas, e compinchas como o Irritado. Quanto a «perseguições», o Pinto de Sousa diz o mesmo… Acho bem que não enfie a carapuça, mas isso não muda os factos.

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