Acabo de ler um esclarecedor artigo de uma notável colunista, Teresa de Sousa de seu nome, conhecida por, muitas vezes, escrever umas coisas com pés e cabeça.
Desta vez, porém, a sua conhecida militância ultrapassou o bom senso e a capacidade de análise.
Basicamente, a senhora vem dizer que o chamado governo está no seu pleníssimo direito de fazer as contas que lhe apetecer, desde que de acordo com as promessas eleitorais do chamado primeiro-ministro e com os compromissos do pacto do front populaire. É claro, reconhece, tais promessas e tais compromissos vão ao arrepio da vontade e das normas daquilo a que soe chamar-se Europa, bem como da opinião generalizada de todas as vozes competentes e autorizadas cá do rectângulo.
As vozes internas não interessam à articulista. Quanto às “europeias”, há que fazer exigências, há que dobrá-las, há que fazê-las mudar de opinião, isto é, pô-las a acreditar que o amadorismo primário do senhor Centeno e as tiradas balofas do senhor Costa têm as mais salvíficas propriedades. Então, o Rajoy não tem obtido coisas e loisas? E o Renzi não tem feito o mesmo? O Hollande, a Merkel, não têm ultrapassado as metas? O Costa é menos que eles?
A resposta deveria ser: não é menos que eles, a nossa situação é que não é a mesma, e será muito pior se se continuar no caminho que o “tempo novo” já, claramente abriu.
Dois exemplos, entre muitos:
Haverá alguma hipótese de convencer seja quem for, seja em Bruxelas seja na Reboleira, que o aumento brutal e repentino da despesa pública vai gerar o progresso da economia? E que tal progresso se cifrará em quatro vezes o investido, como consta dos “cálculos” do Centeno?
Haverá alguma hipótese de convencer seja quem for, seja em Bruxelas seja na Reboleira, que a “reversão” dos contratos assinados pelo Estado vai fomentar o investimento?
É de pensar que a ilustre senhora está no comprimento de onda da Câmara de Lisboa, que diz que passar a velocidade na II Circular da 80 para 60 quilómetros à hora vai fazer o trânsito escoar-se mais depressa.
Cada um acredita no que quer, não é? Mas não é por muito acreditar que o preto passa a branco ou vice-versa.
31.1.16

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