IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


CONSPIRAÇÕES

 

O IRRITADO tinha, muito seriamente, pensado não se meter mais na história das chamadas “secretas”. Mas o bombardeamento é de tal ordem, que se torna difícil não dar pela coisa.

 

As teorias da conspiração são aos pontapés. Ao ponto de se achar que a segurança da Pátria está em causa, que há desrespeito pelo segredo de Estado, que, mais tarde ou mais cedo, a Alcaida nos vai saltar em cima, aviões a cair, mortos nas ruas, o diabo a quatro. Admita-se a aflição de tantas e tão bem informadas almas. O tal Silva Carvalho é suspeito dos mais hediondos crimes, atrás dele um tal Vasconcelos, uns trutas que mandam naquelas coisas, o governo, o ministro-adjunto, quem sabe se o PM, este ou o anterior. Já se põe a questão da demissão de um e, a avaliar pelo crescendo de “bocas” e de altas deduções, parece que, se calhar, o melhor seria mandar o PM para casa, novas eleições, sabe-se lá que mais.

 

Se calhar é tudo verdade, se calhar não é.

 

Facto é que ninguém se cala. Os serviços ditos secretos deixaram de o ser, para se tornar numa organização tenebrosa, vendedora de segredos de Estado, agência de informações comerciais e não sei mais quê.

A coisa não vai parar, pelo menos enquanto as pessoas não deixarem de comprar jornais à pala do assunto.

 

Por mero exercício de retórica, façamos uma conspiração ao contrário, incompetentes que somos para conjecturar, mas reivindicando o direito de o fazer.

Há longo tempo, é público e notório que o senhor Balsemão arranjou uma inimizade mortífera com o senhor Vasconcelos, possivelmente por causa de turras em relação ao seu periclitante conglomerado empresarial. Não será estúpido pensar que isso tenha sido determinante, ou tenha tido forte influência na cruzada anti-Vasconcelos lançada pelo “Expresso”, após “cuidada” “investigação jornalística”.

Apesar de o inefável tipo do MFA/PS encarregado de vigiar estas matérias ter vindo à tona informar que não havia nada de suspeito naquela coisa toda, a tempestade continuou e foi tomando colossais proporções. Já há não sei quantos arguidos, não sei quantos suspeitos, não sei quantas acusações, não sei quantos advogados, não sei quantos magistrados que parecem não fazer outra coisa, buscas, violações de correspondência, espionagem electrónica, uma data de “serviço”. Muito bem.

 

Vejamos agora as acusações que têm vindo à baila.

A primeira refere-se a umas informações que o tal Silva Carvalho terá passado ao tal Vasconcelos sobre uns cavalheiros russos que queriam vir até cá fazer negócios com ele. Tratar-se-ia de saber se era gente de confiança ou se não andariam metidos com as máfias, as tríades e outras meritórias organizações, se tinham meios financeiros etc. Alguma destas matérias podia ser segredo de Estado? É evidente que não. Pode alegar-se que aos serviços secretos não compete obter informações comerciais. Mas não deixa de ser evidente que muitas das informações obtidas têm, ou podem ter interesse comercial sem deixar de ser obtidas por quem são para outros fins.

Segundo crime objecto de acusação é o que se refere a outras informações do mesmo tipo, com eventual importância económica, incluindo para a respectiva “diplomacia”.

Terceiro crime. Parece que o Silva Carvalho, ou alguém por ele, terá ilegitimamente penetrado numa factura da Optimus. Aqui sim, se for verdade, há mesmo crime. Deve, porém, tratar-se de coisa menor, se tivermos presente a entrada do Diário de Notícias no email de um tipo a propósito do qual desencadeou uma campanha com demolidores e bem sucedidos resultados políticos. Ninguém se chateou com o assunto. E, no entanto, houve violação, aliás confessa, de correspondência, seguida da sua pública utilização na intriga política. Porque há-de o actual caso (o da factura da Optimus) merecer tanto escândalo e tanta reprovação, se um caso similar deu lugar a coisa nenhuma que não fosse a descredibilização política de alguns por tais e tão ilegítimos meios? Não há moralidade nem comem todos!

Quarto crime. O senhor Silva Carvalho saiu da secreta para um belo tacho na organização do Vasconcelos. É estranho, mas toda a gente diz que a coisa não viola qualquer lei. Então porquê tanto alarido?

Quinto crime. Parece que o Silva Carvalho mandou ao ministro-adjunto um plano de reestruturação dos serviços. Então o actual, ou anterior, encarregado da coisa, não pode, sem incorrer em crime, dizer ao governo, que nada lhe terá pedido, como gostava de ver a coisa organizada, ainda que com evidente interesse pessoal? Então os eventuais receptores de tal plano não podem ser chamados e ter opinião, nem que tal opinião seja não ter opinião, ou não ler, ou não ligar ao assunto?

  

Resumindo e concluindo:

O estardalhaço que para aí anda, ou serve para vender jornais, ou para entreter o pagode.

Donde, a conspiração do IRRITADO é tão legítima quanto as outras. Guerras empresarias são guerras empresarias, e está para nascer quem diga que houve violação do segredo de Estado nas informações que circularam.

A conspiração dos outros, e que outros!, também será legítima, mas cheira a tempestade num copo de água e a areia nos olhos, ainda por cima salgada.                  

 

12.5.12

 

António Borges de Carvalho



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