IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


COISAS DE FAMÍLIA

 

Não fazia ideia de que o senhor Louçã, conselheiro de Estado, figura grada do Banco de Portugal, fundador da secção portuguesa do socialismo revolucionário inspirado no orago Trotsky, patriarca da extrema esquerda, tinha irmãos.

Mas tem, e parece que a mesma cepa deu uvas da mesma cor. Os manos, porém, são, ou acham que são, mais loucistas que o Louçã. De tal forma que, acompanhados por duas dúzias de marxistas ortodoxos, dos puros, dos bons, mandaram às urtigas as pupilas do mano, raparigas modernas, de alto sentido das conveniências, acusando-as de desviacionismos e revisionismos de vária ordem, para além de ambições burguesas, impróprias da classe operária do antigamente. É que, pode ler-se na carta de despedida, a malta do Beco de Esquerda fiel às esquerdoidas, sendo sem excepção burguesa, passou a fazer jus, não direi ao caviar, mas a uns tremoços e umas imperiais, de preferência seguidos de bife do lombo. No entanto, é gente que, apesar disso, insiste em dizer fez a sua “opção de classe” (é assim que se diz, não é?), sem ter percebido que tal classe é chão que desapareceu e já não dá uvas.

A primeira inquietação que me invade tem a ver com a paz na família – de sangue – dos Anacletos Louçã (conheci o tio Anacleto, que era um reviralhista assanhado dos tempos da II República, mas que não consta fosse de inspiração chinesa ou soviética). Irmãos zangados é um tristeza, não acham? Por isso, é de pôr a hipótese contrária, isto é, continuam fraternalmente unidos, não sendo o patriarca mais nem menos que um infiltrado nas hostes bancárias e no conselho do senhor de Belém, a fim de, por dentro, destruir a burguesia, assim mantendo a fidelidade à ortodoxia. Nesta hipótese, a saída dos manos não será mais que uma encenação, a fazer inveja ao John Le Carré ou, mais propriamente, ao velho Béria. Veremos qual o seu destino.

No caso da outra família – a política – parece que, infelizmente, a cizânia se instalou, deixando o observador externo um tanto perplexo. O Beco de Esquerda tem cromossomas diversos, os do pai e os da mãe, como manda a genética. Lembro-me de ver, com estes que a terra há-de comer, os ultra-comunistas da UDP aos gritos PTA!, PTA!, sendo PTA o Partido dos Trabalhadores da Albânia. Isto no tempo do camarada Enver Hoxa. Um caso de fé inabalável e de cegueira estrutural. Lembro-me que até arranjaram um deputado completamente tarado (já me esqueci do nome), a que outro se seguiu, um militar que tinha a particularidade de ter sido ajudante de campo do General Kaulza de Arriaga em Moçambique mas que, em boa hora, tinha feito a sua opção de classe. Esta extremíssima esquerdíssima, a UDP, é, digamos, a mãe do BE. O pai, indiscutivelmente, é o conselheiro de Estado acima referido, oriundo de comunismos menos fundamentalistas mas igualmente dotados de inabaláveis convicções.

UDPês e Socialistas Revolucionários juntaram os trapinhos e pariram o Bloco, ou Beco de Esquerda, como carinhosamente é hoje conhecido nestas linhas. Diga-se que têm tido notável êxito, já que a cultura política e a consciência social do país deixam muito a desejar.

Mas, como dizem os desalinhados manos Louçã, o vírus burguês entrou nas hostes, sobretudo desde que umas esquerdoidas atrevidas tomaram conta do rebanho. Trata-se de umas tipas que, como os skin heads, andam de moto de alta cilindrada, têm uns empreendimentos turísticos lá para as berças, são assessoradas por um careca mais ou menos parvo e por um artista de altíssima craveira que deu em especulador imobiliário. Muita coisa mais haverá de que ainda não se sabe.

Mas sabe-se, desgraça das desgraças, que as esquerdoidas querem poleiro. Não, não é o poleiro no partido, que esse já têm, é o poleiro propriamente dito. Querem mandar também cá por fora, querem ser ministras, secretárias de Estado, directoras gerais, presidentes de empresas públicas, altas dirigentes das futuras regiões… A tudo se acham com direito e para tudo contam com o padrinho Costa, em quem, aqui e ali, vão batendo: ele não liga, quanto mais lhe batem mais gosta delas.

Os puros, os bons, ou os que perceberam que iam ficar de fora, não aguentaram as justas ambições das esquerdoidas, nem, por inconsequente, a violência doméstica que exercem sobre o Costa. Vai daí passam à peluda e, das catacumbas do comunismo, denunciam, com toda a razão, os vícios burgueses em que as camaradas cairam, e com elas o partido.

O chamamento da revolução foi mais forte.

E assim, o triste Beco vê-se privado da sua ligação à pureza ideológica e aos verdadeiros caminhos do proletariado internacionalista. Um horror.

 

21.2.19



3 respostas a “COISAS DE FAMÍLIA”

  1. A mana zabelinha e o mano jonh foram dar banho ao cão, pois prima katrina não os deixava meter a tromba no tacho.Rika famelga

  2. Avatar de Arrisco ser censurado
    Arrisco ser censurado

    Não foi assim que o o triste PPD se viu privado da sua ligação à pureza ideológica e aos verdadeiros caminhos que Sá Carneiro mostrou, quando Santana percebeu que “os puros, os bons” iam ficar de fora? Daí a Aliança! Um horror!!!

  3. Desconhecia a história da família Anacleto Louçã, ou que interessasse ao Irritado. Suponho que faça parte da lógica ‘conhece os teus inimigos’. Em todo o caso, levanta uma boa questão: pode a esquerda não ser pobre ou remediada? Pode um esquerdista rico, ou com aspirações a tal, representar os pobres, os trabalhadores, os have nots? A questão vai mais fundo. Parte da aura inicial do seu Passos, sempre aproveitada pelo marketing laranja, era que vivia em Massamá e passava férias na Manta Rota. Porquê? Porque era ‘um de nós’, um do povo. Em Espanha, o Podemos passou de força imparável a flop. Porquê? Em parte porque o seu líder e ideólogo – aquele puto Iglesias do rabo de cavalo – comprou uma vivenda de 600 mil euros. Deixou de ser do povo. Do povo? Mas o Iglesias nunca foi do povo; sempre foi um académico e mamador político. Ah, mas falava como se fosse: batia no regime, nos privilégios, etc. O seu Passos também era amigo do povo – até enquanto o saqueava para encher mamões. Da boca para fora, todos os políticos são ‘do povo’. Até o bilionário Trump assim ganhou eleições. Porque não há outra forma de ganhá-las: como já lhe disse, nenhum partido faz campanha para milionários. Todos apelam – e mentem – ao povo. Mas para centristas como o Irritado, que defendem o status quo, só os extremos é que são ‘demagógicos’. E para direitistas como o Irritado, só a esquerda é hipócrita. Aí até tem certa razão: é mais hipócrita. Porque a direita não defende a igualdade; defende a mama. A esquerda tem a obrigação moral de ser melhor. A direita não precisa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *