IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


ASSUMIR A DIREITA

Às vezes, muitas vezes, ou sempre, parece que estamos trinta anos atrás. Saídos de um sistema autoritário de direita, estatista e controleiro mas com inúmeros tiques socialistas, a direita democrática considerou-se “social”, evitou nomes, siglas e rótulos que pudessem ser conotados, ainda que por absurdo, com a filosofia vencida. O PPD original teve que se transmutar em PSD, ainda que, com apoios da respectiva internacional, à época vigorosa, o espaço dito social-democrata estivesse ocupado pelo PS. Internacionalmente, o PPD/PSD conotou-se com o PPE, mas internamente não foi capaz de o assumir.

Estamos na mesma. Décadas passadas, tudo mudou no mundo mas, em Portugal, os complexos de esquerda continuam evidentes. Os partidos do centro e da direita têm pejo em afirmar-se como tal, prisioneiros que continuam da tralha esquerdizante que assolou o país. Palavras como conservador e liberal, por exemplo, continuam banidas do nosso léxico político, como se os políticos, seguidos pela “opinião” e pela “informação”, tivessem vergonha de assumir claramente a posição que, no fundo, é a dos seus apoiantes e que está na raiz ideológica da maioria dos povos europeus.

Quando ouvimos, por exemplo, o bem articulado discurso de Rui Rio, para além de verificarmos ao vivo a aplicação do princípio de Peter, ficamos com uma imagem clara do domínio, omnipresente em 2017, do nacional complexo de esquerda, como se o mundo fosse o mesmo, como se o país fosse o mesmo de há tantos anos atrás. Os vícios que esta paralizia mental introduziram na nossa vida e na nossa mentalidade continuam a minar o pensamento e as emoções das nossas elites e a anquilosar a sociedade.

Precisamos de alterar o status quo como de pão para a boca. Mas os políticos que podiam corporizar tal alteração continuam com medo do eleitorado imediato, incapazes de perspectivar um futuro diferente e de o defender publicamente com coragem e determinação. De frente, por palavras claras, sem atalhos nem rodriguinhos. É por isso que a sociedade portuguesa continua tão ou mais estatista e controlada do que o era no tempo da ditadura.

Com uma réstia de pouco optimista esperança desejar-se-ia que o discurso de Pedro Santana Lopes venha a sair deste pântano, não com imediatismos cobardes mas com uma visão do futuro a médio e longo prazo.

 

7.12.17     



5 respostas a “ASSUMIR A DIREITA”

  1. Ah, o seu caro Pedro Santana Lopes. Vi, meio por acaso, uma entrevista que ele deu há uns anos (está no Youtube), quando o 44 lhe chamou “bandalho”. A treta do 44 é irrelevante, refiro-me só à entrevista, e sabe que mais? Ao ouvi-lo, lembrei-me do Irritado. Eis porque acho que aprecia tanto o Santana. De relance, o seu caro Santana passa por um tipo civilizado, um raro político decente, um genuíno liberal. Parece incapaz de guardar rancor, nem sequer do Sampaio, está acima disso, e fala de tudo e todos – até do “Engenheiro Sócrates” – num tom tão neutro e tão sério, que quase soa cândido. A corrupção, o tacho, a cunha, a mama, a impunidade, a podridão deste esgoto pulhítico, tudo lhe passa ao lado, como se ele fosse o vizinho respeitável de uma casa de putedo: não pode ignorá-la, pois vive ali, a custo até admite “ah sim, às vezes ouço uns barulhos estranhos…”, mas não mais do que isso. É um mundo à parte, uma lenda que se conta mas que ele nunca viu. E então, é ouvi-lo por aí a perorar sobre política, como se cá houvesse outra coisa que não pulhítica, ao lado de canalhas e chulões como o Anão Sinistro Vitorino, a quem até louva os méritos. É inevitável lembrar o seu também caro Passos: também ele faz de conta que tudo isto é normal, que o 44 é o “Engenheiro Sócrates”, que a política é coisa séria, que o Dias Loureiro é um empreendedor modelo, etc etc. E assim, de certa forma, é também o Irritado. Com a diferença de poder dizer mais, aqui no seu cantinho, por não estar tão exposto, no essencial assume a mesma postura, digamos, púdica perante as coisas. Perante todo este putedo. E é por isso que gaba o Santana e o Passos. Não só por serem parentes ideológicos, direitistas e liberais, mas também pela atitude “positiva”, toda branqueamento e nove horas, destes dois chulecos sonsos.

    1. Excelente comentário.

    2. Comecemos pelo Passos. Foi Passos que fez o manguito ao Salgado. Foi Passos quem pôs a funcionar a PGR. Foi Passos talvez o primeiro PM que nunca se meteu com a liberdade de imprensa, ainda que esta passasse a vida a condená-lo. Passos aguentou sem uma palavra as nojentas diatribes da Manuela, do Pacheco e de outros que lhe mordiam as canelas todos os dias. Como é possível dizer que Passos fechava os olhos à corrupção, se nunca tinha havido tanta perseguição à coisa? Passos não se pronunciava sobre o assunto, o assunto estava entregue, e bem, a quem de direito, pela primeira vez sem intervenção política. Como é possível pô-lo no mesmo saco da canalha?Quanto a Santana, concordo que foi o que se pode arranjar, já que a baronagem deu cobardemente à sola. Santana não é tão mau como o pintam. Tem sido sempre coerente com a sua posição de centro direita. Ainda ontem um plumitivo “liberal” o acusava de ter aberto as portas ao Sócrates! Vale tudo. É natural que Santana esteja numa posição de “bom senso”, já que quem o acusa, acusa do contrário. De qualquer maneira, ó céus, entre Rio e Santana, o que é que você quer? Há escolha? Passos

      1. Mesmo admitindo medidas positivas de Passos – com grande licença poética, pois foi too little too late, e no BES o que mudou foram as regras europeias para os buracos da Banca – isso não altera a postura dele. Até ao fim, Passos Coelho foi um sonso. Um jotinha sonso. Depois do desastre xuxa, enganar o país e pô-lo na mão do Relvas foi indesculpável. Mas nem é disso que falo: é de como ele encara isso. De como faz de conta que o Relvas é normal, ou como branqueia mafiosos, ou como ainda diz “Engenheiro Sócrates”, ou daquele tom professoral – após uma vida de tachos e subsídios! – a dar sermões sobre ética e sacrifícios. Entende o que quero dizer? O Santana em vez de professor arma-se em senador, mas o tom é parecido. Recusa, tal como o Irritado, assumir a javardeira. Está tão entranhado nela, vive dela há tanto tempo, que não pode admitir que faz parte dos javardos, mais que não seja a comer da mesma gamela, ou a tentar dar-lhe uma aparência séria e normal. A ser realmente sério – nem era preciso ser “justiceiro” – manter essa pretensa normalidade seria impossível. Sei que o Irritado entende isto. Mas é incapaz de sair dessa indulgência morna e cúmplice, de quem aceita a podridão, que confunde com pragmatismo.

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