A propósito desta história da língua, vem à colação uma coisa que ouvi ontem da boca da intelectualíssima e correctíssima senhora dona Clara Ferreira Alves. “Moçambique está completamente colonizado pela África do Sul”, disse a senhora do alto da sua colossal sapiência.
É evidente que, agora como no passado, Moçambique não pode deixar de ter, como principal parceiro e mais óbvia influência, a República Sul Africana. Mete-se pelos olhos dentro. Mas é preciso não ter a mais remota noção do que se passa em Moçambique para não saber que a influência portuguesa já não é influência. É, sim, um dos vectores culturais próprios daquele país, de “expressão moçambicana”, como disse um ministro qualquer lá do sítio. Ou seja, a “portugalidade” deixou de ser uma imposição ultramarina para se transformar numa característica intrínseca dos costumes e da individualidade locais, como, para nós, é a “latinidade”. Falar português é, para os moçambicanos, um precioso factor de unidade nacional e de personalidade social própria. Não é preciso ir ao ponto de verificar com “orgulho” o gosto deles pelo bacalhau com batatas ou o seu desprezo pelo râguebi e amor ao futebol, a sua fé no Benfica ou a sua predilecção (os que podem) pela RTP Internacional. Tudo isso faz parte das idiossincrasias locais, não os costumes e cânones culturais sul-africanos, ou as imposições de tratados ou acordos. É assim porque é assim.
Não é sensato incensar a nossa “influência” como se de um novo império se tratasse. Mas também não se pode ignorar a simples verificação dos factos, como, ignorantemente, o faz a poderosa intelectual.
António Borges de Carvalho

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