Antigamente, o PC tinha a cassete das “amplas liberdades” cunhalistas. Hoje, tem outras, ou mudou-lhes o fato. Os camaradas usam-nas sem cessar. O camarada Xico Lopes deu-nos uma versão fidelíssima da cassete do dealbar do séc. XXI, a qual, substancialmente, nada difere da do Cunhal, mas é provida de doses maciças de “portantos”, o que nos dá uma versão mais analfabeta que a do defunto mestre, que de analfabeto nada tinha.
O sistema parece ter feito escola.
Já não será uma cassete, coisa antiquada, mas uma “pen”, distribuída pelo senhor Pinto de Sousa aos seus mais fiéis esbirros.
Ouvi e vi, ontem, os rapazes a despejá-la, e nem sequer se pode dizer que em várias versões, uma vez que disseram todos as mesmíssimas coisas e esconderam todos as mesmíssimas coisas.
Isto, num só canal de TV. Presumo que, nos demais, o pelotão da “pen” tenha actuado em conformidade. As agências de publicidade do chefe devem ter atacado os media com o habitual profissionalismo.
Vamos ter meses da mesma arenga, destinada a branquear os malefícios do senhor Pinto de Sousa e do PS, e a lançar poderoso anátema sobre o Dr. Passos Coelho e o PSD, sobretudo pelo que não fizeram mas que, nas cabeçorras trafulhas do chefe e dos seus esbirros, deviam ter feito ou virão a fazer.
Só na SIC, fomos presenteados com 36 minutos (!) de “pen” repetida no paleio do rapazola do beiço à banda, com uns bons 20 minutos exactamente do mesmo pela boca do Costa, e, sendo pouco, com um “comentador” (o propagandista da Uiquiliques) e uma “comentadora” (mais chucha que os chuchas) os quais, ressalvada alguma pretensa originalidade, de outra coisa não falaram senão do distinto conteúdo da “pen”. Ao todo, entre as 10 e a meia-noite, a SIC deu ao senhor Pinto de Sousa mais de uma hora de tempo de antena, coisa que, como de costume, será repetida n vezes, para os públicos das diversas horas.
Isto, apesar de o senhor Pinto de Sousa já ter lido a “pen”, na véspera, com cábula e tudo, em interminável, aldraboso e entediante palavrório!
Os chorrilhos de mentiras, assim repetidas, e repisadas com a ajuda dos media, são, no fundo, a aplicação da receita de Lenine e de Cunhal: tantas vezes são ditos, que passam a ser verdade na cabeça dos incautos.
Em Novembro de 2009, os “nossos” juros andavam pelos 3,8%. Em Março de 2011 (antes do pedido de demissão do senhor Pinto de Sousa) já iam em 7,82, ou seja, tinham subido mais de 100%, sempre sob a batuta do senhor Pinto de Sousa. E, no entanto, o mesmo indivíduo apressou-se a incluir na “pen” que a culpa é do Dr. Passos Coelho!
Não há quem não saiba que o senhor Pinto de Sousa se portou como um javardo ao comprometer-se em Bruxelas sem dar satisfações fosse a quem fosse. E, no entanto, na “pen”, ou nem uma palavra sobre o assunto, ou a afirmação de que o governo, apesar de minoritário, apesar de desacreditado urbi et orbe, tinha toda a autoridade para levar a Bruxelas o que muito bem entendesse sem dar cavaco nem sequer ao dito.
Não há quem não saiba que o Ministro das Finanças, em raro ataque de sinceridade, anunciou as medidas enquanto o senhor Pinto de Sousa as vendia em Bruxelas. E, no entanto, reza a “pen” que o que o ministro das finanças não anunciou o que anunciou, ou que não era como ele disse, ou que anunciou mal, ainda que o PM mantenha nele toda a confiança – mandou o Costa insultá-lo e desautorizá-lo, mas mantém nele toda a confiança!
Não há quem não saiba que o governo não precisava de apresentar tais medidas naquele dia nem que o Banco Europeu e a Comissão andaram por cá a preparar as medidas com o governo durante uma data de dias. E, no entanto, a “pen” diz às pessoas que as tais medidas tinham sido feitas “de urgência”. “Tinham que ser”.
Não há quem não saiba que o senhor Pinto de se comprometeu até ao pescoço em Bruxelas. E, no entanto, a “pen” diz que o governo estava pronto a “negociá-las”, porque se tratava só de “linhas de orientação”.
Não há quem não saiba que o próprio Pinto de Sousa, numa das muitas horas de propaganda que a televisão lhe dá, começou por afirmar que não havia PEC nenhum, só as tais “linhas de orientação”, e que, na mesma entrevista, dez minutos depois, declarava com a mesma cara que se tratava de um PEC, e de um PEC tão importante que se demitiria se fosse chumbado. Em dez minutos, “as linhas de orientação” passaram de realidade a ficção, na boca da criatura.
Não há quem não saiba que o senhor Pinto de Sousa se portou mais uma vez como um carroceiro – sem ofensa para os carroceiros – quando virou costas ao plenário da AR, cuspindo na representação nacional, como um hitlerzinho abandalhado. E, no entanto, a este respeito, a “pen” é omissa.
Não há quem não saiba que o ministro das finanças seguiu o exemplar exemplo do chefe dando à sola do plenário para não ouvir o magnífico discurso da dona Manuela. E, no entanto, a este respeito, mais uma vez a “pen” nada diz.
A cruzada da aldrabice continua viçosa, apesar de já ter 6 anos de idade.
Em matéria de “pen”, o senhor Pinto de Sousa e os seus esbirros ultrapassam a cassete do Cunhal, do Jerónimo e do Xico Lopes. De que maneira!
É por estas e por muitas outras que caem em saco roto os apelos dos aflitos para que os outros partidos se entendam com o PS.
Não se põe a questão nestes termos. Não é possível, seja a quem for, entender-se com gente desta igualha, sob pena de perder todo e qualquer sentido de dignidade e de se sujeitar, sem margem para dúvidas, a ser enganada e traída, que é o que há muitos anos vem acontecendo a todos nós.
Há duas soluções.
- O que resta do PS democrático corre depressa com o senhor Pinto de Sousa substituindo-o por alguém com um mínimo de espinha; ou
- Nas eleições, o PS leva uma tunda de tal ordem que nem se porá a hipótese de ser preciso entender-se com ele seja para o que for.
Escusado será dizer qual é a solução que vai mais ao encontro dos interesses dos portugueses.
25.3.11
António Borges de Carvalho

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