Lisboa está a ser objecto de uma notável operação de modernização. O município, generosa e inteligentemente, descobriu os radares! Os radares! E eu, que julgava que já havia disso por todos os lados! Sou uma besta!
Atenda-se à minha desgraça. Há tempos, num domingo, seriam umas nove e meia da manhã, fui ao aeroporto. Gago Coutinho acima e abaixo, não havia vivalma. Soube-me bem, o silêncio, a paz de uma cidade adormecida. Devagar, pensava eu, fiz a viagem, para lá e para cá.
Devagar uma ova! As distintas autoridades, que têm a perseguição das pessoas como principal característica da governação, estavam atentas. Através de um radar, julgo que móvel, mediram a velocidade e tiraram-me o retrato. As consequências destes arroubos tecnológicos foram devastadoras: calcule-se que, segundo a tenebrosa máquina, me deslocava à estonteante velocidade de noventa e dois quilómetros à hora! Como, no local, a velocidade administrativa é, seja em que circunstância for, de cinquenta(!!!), eis-me, já não sei se em ofensa grave se em flagrante e criminal delito. Pumba! Um balúrdio de multa e um mês sem carta. Toma que é para saberes.
Escrevi ao digníssimo comandante da polícia. Que não havia qualquer espécie de trânsito, que a velocidade a que seguia era absolutamente inócua, blá, blá, blá. Devia ter escrito, mais que não fosse para meu consolo, que não é justo que, ao domingo de manhã, uns polícias, chateados por estar a trabalhar quando os outros descansam, se vinguem num desgraçado que não fez mal a ninguém. Não o fiz, e fiz mal. Porque a resposta seria a mesma. Um computador, missiva chapa quatorze, veio dizer-me que a Lei, blá, blá, blá, vá-se lixar.
É com este tipo de inteligência que as distintas autoridades pensam educar os portugueses. Não percebem que, se a Lei é estúpida, as pessoas, que não a percebem, ou se esquecem dela ou fazem o que estiver ao seu alcance para a não cumprir.
Para as distintas autoridades, a Lei não é só igual para todos, é também igualmente aplicável em todos os casos e em todas as circunstâncias. Um Porsche Carrera 4, novinho em folha, na auto-estrada, não pode ultrapassar os cento e vinte à hora. Exactamente o mesmo que se passa com um Fiat quinhentos com trinta anos de idade. Um tipo com três condenações por atropelamento está sujeito ao mesmo limite. Outro, que nunca foi, sequer, multado, está na mesma. Se a auto-estrada for óptima, com três faixas e raro tráfego, o limite é cento e vinte. Se estiver cheia de buracos, ou de lombas de má construção (olhem a CREL!), ou prenhe de movimento, o limite é cento e vinte. Se estiver bom tempo, o limite é cento e vinte. Se chover, ou nevar, o limite é cento e vinte. Para um chefe de família com trinta e dois anos, o limite é cento e vinte. Para uma velhinha de oitenta e cinco, o limite é cento e vinte.
Xiça! Tanta estupidez toca as raias da loucura!
Mas sosseguem os espíritos mais inquietos, pelo menos os de Lisboa. A câmara vai "implementar" (neologismo bacoco e analfabruto) um novíssimo sistema.
A capital, seguindo os objectivos dos nossos bem amados PR e PM, moderniza-se!
Portugal anda para a frente. Em tudo, menos em inteligência.
António Borges de Carvalho

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