IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


O SENHOR REIS

 

Não sei se já contei esta história, a história das minhas “relações” com o “Frágil”. Se for o caso, peço desculpada minha fragilidade.

Há para aí trinta e tal anos, depois do cinema, fomos, eu e a minha mulher (não sei se mais alguém), ao “Frágil”. Ouvimos falar, está na moda, vamos ver como é.

Meia-noite e picos. Uma pequena multidão, com o ar ansioso de quem quer fazer parte de uma coisa qualquer, gente moderna, vestida à maneira, aglomerava-se à porta. Assumi um ar importante, atravessámos a turba, direitinhos à porta. Um fulana de carnes avantajadas (diz-se que é hoje conhecida pelos amigos por Guida Gorda) servia de porteiro. Deve ter gostado, sabe-se lá porquê, da nossa cara, e deixou-nos entrar. Outra pequena multidão girava pelas instalações com ar compenetrado, gente culta ou pseudo isso, que, imaginaria eu, discutia importantes assuntos. Poucos risos, coisas sérias. Muito bem. A custo, cheguei ao balcão e pedi uns chàzinhos da Escócia. Servido, paguei, e preparei-me para me encostar num canto qualquer a observar aquela gente e beber o meu copo. À primeira deglutição, porém, concluí que o “chá” não era da Escócia, nem sequer de Sacavém. Pousei delicadamente a mistela num sítio qualquer e dei ordem de partida. Para nunca mais voltar.

Nunca soube quem era um senhor Manuel Reis, a quem presto a homenagam devida aos que “se vão da Terra”. Hoje, dada a partida do referido senhor desta vale de lágrimas, vejo a importância verdadeiramente colossal que tinha na nossa sociedade, talvez a merecer lugar no Panteão da República. E fiquei a saber que o senhor Reis, além de proprietário do também já falecido “Frágil”, o era também do “Papa Açorda”, do “Lux”, do novo “Papa Açorda” e do “Bica do Sapato”, desde já pedindo desculpa se me falha algum elemento do império do senhor Reis.

Acho que nunca o vi. Não sei se era um senhor que saltitava à volta das mesas do antigo “Papa Açorda”, a cumprimentar políticos e outras alegadas celebridades. Presto a devida homenagem às pataniscas locais, bem com aos peixinhos da horta (os melhores da minha carreira), e à açorda com jaquinzinhos, petiscos dignos de altos encómios. A “Bica do Sapato” tem alguma piada, mas não chega aos calcanhares dos peixinhos da horta; um sítio interessante para ir de dois em dois anos, como um restaurante chinês. O novo Papa Açorda, esse, não tem piada nenhuma, a nenhum título. No “Lux” nunca pus os pés, se calhar por razões etárias.

Tudo somado, direi que o senhor Reis deve ter sido um tipo porreiro, um tasqueiro de boa qualidade, um empresário com olhinhos, simpático, piadético, um tipo que soube cair em graça em certos meios, sobretudo entre burguesia pseudo-culta, pretenciosa, mais ou menos inútil e com uns cobres para gastar. Pelos vistos, um mercado cheio de potencialidades que o senhor Reis em boa hora descobriu. Chapeau. Tudo bem, tirando o wiskey martelado.

Mas, para um estranho que entre em Portugal nos dias e semanas a seguir à sua morte e leia os jornais, deve achar que o senhor Reis é uma espécie de Stephen Hawking (não sei se é assim que se escreve) português, um Picasso, uma Amália, uma clebridade de altíssimo gabarito e projecção universal. Há editoriais, ensaios, artigos de inúmeros pensadores, de artistas, de fulanos “correctos”, de carpideiras diversas, a pôr o senhor Reis nos altares da Pátria. Diria com os latinos que est modus in rebus, ou seja, que a nacional-saloiíce pequeno-burguesa e pretensamente pensante manda muito cá no sítio.

Ao ponto de haver inúmeras vozes a criticar o senhor de Belém por não ter prestado a devida homenagem ao senhor Reis. Por mim, que não nutro nenhuma especial simpatia pelo senhor de Belém, acho que, neste promenor, merece aplauso.

 

2.4.18    



Uma resposta a “O SENHOR REIS”

  1. Avatar de Filipe Bastos
    Filipe Bastos

    No que toca ao falecido Sr. Reis, não poderia concordar mais com o Irritado. Como lhe mencionei, salvo erro quando o “Livre” do eurochulo Tavares lá assentou praça, fui ao Frágil duas vezes. Não deixou saudades. Um camarada da tropa, gay assumido, cliente habitual, disse-me na altura que por lá só havia “putas e paneleiros”. Creio que tinha razão. Ao Pap’Açorda fui uma vez, no Bairro Alto. Confirmo os jaquinzinhos, umas ovas panadas, e também gostei da mousse. Do resto nem tanto, e o serviço era do piorio: os criados pareciam todos maricas arrogantes e antipáticos. Não voltei. À Bica, se fui não me lembro. Ao Lux fui muitas vezes: as bebidas eram maradas (deve ser uma tradição do Sr. Reis), a música pretensiosa, o ambiente presunçoso, o serviço um escarro (outra tradição). Mas ia lá muita miúda gira, lá isso ia. O Sr. Reis tinha jeito para o negócio e para marketing? Sem dúvida. Topou a nossa pseudo-elite intelectualóide e política e fê-la sentir-se querida, vaidosa, especial. Daí o duche de elogios. E assim se vê a influência, a ubiquidade me(r)diática desta canalhada. No resto, para o comum cliente pagante que ia aos seus estabelecimentos? Bah. Uma bela trampa.

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