Às vezes, muitas vezes, ou sempre, parece que estamos trinta anos atrás. Saídos de um sistema autoritário de direita, estatista e controleiro mas com inúmeros tiques socialistas, a direita democrática considerou-se “social”, evitou nomes, siglas e rótulos que pudessem ser conotados, ainda que por absurdo, com a filosofia vencida. O PPD original teve que se transmutar em PSD, ainda que, com apoios da respectiva internacional, à época vigorosa, o espaço dito social-democrata estivesse ocupado pelo PS. Internacionalmente, o PPD/PSD conotou-se com o PPE, mas internamente não foi capaz de o assumir.
Estamos na mesma. Décadas passadas, tudo mudou no mundo mas, em Portugal, os complexos de esquerda continuam evidentes. Os partidos do centro e da direita têm pejo em afirmar-se como tal, prisioneiros que continuam da tralha esquerdizante que assolou o país. Palavras como conservador e liberal, por exemplo, continuam banidas do nosso léxico político, como se os políticos, seguidos pela “opinião” e pela “informação”, tivessem vergonha de assumir claramente a posição que, no fundo, é a dos seus apoiantes e que está na raiz ideológica da maioria dos povos europeus.
Quando ouvimos, por exemplo, o bem articulado discurso de Rui Rio, para além de verificarmos ao vivo a aplicação do princípio de Peter, ficamos com uma imagem clara do domínio, omnipresente em 2017, do nacional complexo de esquerda, como se o mundo fosse o mesmo, como se o país fosse o mesmo de há tantos anos atrás. Os vícios que esta paralizia mental introduziram na nossa vida e na nossa mentalidade continuam a minar o pensamento e as emoções das nossas elites e a anquilosar a sociedade.
Precisamos de alterar o status quo como de pão para a boca. Mas os políticos que podiam corporizar tal alteração continuam com medo do eleitorado imediato, incapazes de perspectivar um futuro diferente e de o defender publicamente com coragem e determinação. De frente, por palavras claras, sem atalhos nem rodriguinhos. É por isso que a sociedade portuguesa continua tão ou mais estatista e controlada do que o era no tempo da ditadura.
Com uma réstia de pouco optimista esperança desejar-se-ia que o discurso de Pedro Santana Lopes venha a sair deste pântano, não com imediatismos cobardes mas com uma visão do futuro a médio e longo prazo.
7.12.17

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