Muita gente gosta de coisas vermelhas: o Benfica, o PC, e outros que as têm como emblemáticas, tal a Vodafone e a minha pasta dos dentes.
Na política, temos inúmeras linhas vermelhas, uma imagem de retórica normalmente tendente a ser esquecida ou recuperada segundo as conveniências: o Portas tinha umas, a absurda Catilina esgrime outras para inglês ver, e até o tipo do Sporting pratica tal desporto.
Por mor da geringonça, porém, temos o lápis vermelho, a lembrar os velhos tempos do outro, o azul, o dos coronéis da II República. Há exemplos disto um pouco por todo o lado, com serventuários praticantes aqui e ali, mas com tendência a proliferar, via saneamentos PRECo-saramagueses.
Ainda é permitido criticar o poder, desde que dentro dos limites da moral republicana e socialista. Mas, atenção, a coisa tem limites! Se for demasiado profunda ou, o que é pior, demasiado inteligente, alto e pára o baile!
É o caso de um tipo (há outros) criteriosamente escolhido, leia-se varrido pela bempensância “informativa”, ou seja, pelo gringoncial lápis vermelho. Trata-se do mais inteligente, do mais acutilante, do mais mordaz, do mais indispensável à moralização dos que, como o IRRITADO, não têm pelo chamado governo e seus adeptos uma especial consideração. Mesmo para alguns adeptos da coisa – os não estúpidos, se os houver – as crónicas de Alberto Gonçalves eram balsâmicas, pelo menos do ponto de vista do desafio e da profundidade.
Mas… Alberto Gonçalves passava das marcas e podia perturbar a serenidade das hostes. Daí que, à boa moda do Putin, tivesse que ser silenciado. Dados os nossos brandos costumes, mandá-lo matar seria mal aceite, a Europa não gostava: chega o saneamento. O “Diário de Notícias”, como o IRRITADO já teve ocasião de sublinhar, correu com ele. Agora, foi a revista “Sábado” (que, por indesmentível lógica, sai à 5ª feira) a dar-lhe com os pés, substituindo-o por coisa mais mansa.
A título de declaração de interesses, o autor do IRRITADO informa que comprava tal revista (que não interessa a ninguém com dois dedos de testa) exclusivamente para levar para casa o artigo do Alberto Gonçalves. Este fez duas semanas de férias (no que me diz respeito, duas semanas sem comprar o papelucho) e, quando elas acabaram, foi corrido, ou seja, foi submetido ao lápis vermelho do director da coisa, que não sei quem é mas que, como é evidente, está feito com o poder social/comunista. A poupança semanal assim obtida veio reforçar a poupança diária já em curso por alma de um DN menos mau mas igualmente ingressado na classe dos rinocerontes da fábula do Ionesco: o Baldaia, para provar que é “da malta”, escovou o Gonçalves.
Espera-se que, a todo o momento, o Tavares (o bom, ou bonzinho) seja também posto na rua pelos gerentes do “Público”. Já faltou mais.
6.4.17

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