Gostava de deixar aqui uma palavra o mais politicamente incorrecta que se possa imaginar. Uma palavra de apoio e compreensão para com a dona Maria Luís (não a conheço nem nunca a vi) no seu novo emprego. Porventura a única palavra que, neste sentido, alguém pronunciará, o único apoio que a senhora ouvirá, se ouvir.
Dá-me um certo prazer furar a unanimidade vigente. Furar os altíssimos conceitos morais, políticos, sociais e de outras naturezas (de inveja, raiva, frustração, etc.) que por aí pululam, à esquerda, à direita e ao centro. Não, não são unânimes, o IRRITADO não alinha.
Os conceitos em uso constituem uma inversão do Direito, isto é, a senhora é uma criminosa sem culpa e sem suspeita. É culpada e suspeita porque pode vir a ser culpada e suspeita, não porque tenha feito fosse o que fosse de culpado ou suspeito. Tal como eu ou você, que podemos vir a ser culpados ou suspeitos de tudo e mais alguma coisa, porque, sendo livres, podemos vir a ser culpados ou estar suspeitamente envolvidos em algo que possa ser culposo.
Porque ando na rua, posso vir a dar um pontapé no rabo de uma velhinha. Mas não dei, nem nada pode indicar que quero dá-lo. Mas sou suspeito, ou antecipadamente culpado, só porque ando na rua e porque tenho pés que podem dar, ou vir a dar, pontapés no rabo de velhinhas que andam na rua e têm rabo. O único remédio para evitar tal possível eventualidade é proibir-me de andar na rua. Uma coisa que me chateia.
É claro que a dona Maria Luís se expõe à turbamulta. Um sinal de coragem e de afrontamento ao politicamente correcto. Deveria, segundo a moral correcta, meter as suas competências na gaveta, esquecer o que sabe e quem conhece, abdicar da sua profissão, deixar-se ficar sentadinha na bancada da AR, inutilizar-se, abdicar de si mesma? Parece que a empresa onde vai colaborar comprou crédito ao Banif. E depois? Foi crime? Foi a a dona Maria Luís que o vendeu? E se fosse? É crime? Não, nada. Torna-a suspeita de quê? De coisíssima nenhuma.
Acho que faz muito bem em afrontar a falsa moral que, nos nossos dias, nos comanda a vida em sociedade, invertendo tudo e tudo esmagando.
As pessoas que tiveram ou têm, algum poder político, passam a párias? Talvez. A inveja é, nos nossos dias, o mais alto dos valores. Na verdade, sempre foi. Em casos destes, entra em paroxismo generalizado.
O IRRITADO deseja à dona Maria Luís as maiores felicidades no seu novo empregozinho. E, já que tal coisa é, segundo as crónicas, só para dois dias por mês, que continue a prestar serviços na Assembleia. Onde está o crime, onde está a culpa, onde está a imoralidade?
Responde a turbamulta: é que pode vir a dar um pontapé no rabo de alguma velhinha.
7.3.16

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