O Canadá é como é. Bela paisagem. A cidade do Quebeque é uma tara. Come-se pessimamente. Os tipos podiam ser mais simpáticos. Etc. Julgo que não vale a pena maçar os irritáveis com crónicas de viagem.
Interessante, no entanto, é lembrar que o Canadá se governa perfeitamente tendo o Chefe de Estado em Londres e um governador seu representante em Ottawa. Sua Majestade, presente em todas as moedas e nalgumas notas de banco, é o símbolo vivo do passado e do presente, e da esperança num longo futuro. O que é perene, fundamental, substancial e identitário não é sujeito aos baldões da política nem interfere na gestão dos negócios correntes. Existe, simplesmente, como existe a Nação. Confunde-se com a essência dela. No Canadá não há república, nem presidente da república, nem é preciso aborrecer as pessoas a discutir o que não se discute: a existência e a representação do que é tido por imutável.
No Canadá são escrupulosamente respeitados os valores a que, na nossa aldrabófona e primitiva cultura política, se dá o nome de “valores republicanos”. Respeita-se a moral que se consubstancia nas liberdades públicas e no primado do direito sem lhe chamar, como, indecentemente, pornograficamente, se lhe chama em Portugal: “moral republicana”.
O Canadá, como o Reino Unido, se vai para a guerra, fá-lo sem “caveats”. Não manda soldados para a guerra, como tantos outros, na condição… de não combater! Só no Afeganistão, já se foram 81 vidas de soldados canadianos. Sem um queixume, sem mariquices públicas nem cenas privadas para terceiro ver. Os combatentes (são aos milhares, desde a Grande Guerra) são acarinhados pelos seus concidadãos e tratados com honra pelos poderes públicos. Na cidade do Quebeque, em Montreal, em Kingston, em Toronto, em Ottawa, toda a gente traz ao peito, em Novembro, a “poppy” britânica de homenagem aos caídos e de respeito pelos que voltaram.
Os canadianos podem ser menos simpáticos do que seria de desejar. Em política externa, às vezes, até são um tanto nasty. Mas respeitam-se a si próprios, são um povo, uma nação.
Coisas que a “moral” e os “valores” republicanos, pelo menos entre nós, não levam em grande consideração.
António Borges de Carvalho

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