IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


JOÃO CAMOSSA

 

O João foi um dos homens mais inteligentes que conheci. Dos mais cultos. Dos mais sábios.

Não tinha, nem pela humanidade nem por si próprio, uma consideração por aí além. Abominava o doutor Oliveira Salazar e o socialismo, achava que as pessoas se deviam agrupar em pequenos núcleos, já que, nos grandes, o diálogo era impossível. A si próprio atribuía, como ideologia, o “anarco-comunalismo”, coisa mirífica onde as pessoas se deviam dar bem porque se ignorariam quanto pudessem, e onde o Estado se tornaria (quase) desnecessário. Talvez por isso era monárquico, concebida a monarquia como um sistema em que o chefe era próximo porque longínquo, doce, estimado, não estava sujeito às dicussões dos fabricantes delas e só aparecia quando era indispensável, na certeza de que o ideal era que não precisasse de aparecer.

O João leu coisas que ninguém mais leu, sabia coisas que a mais ninguém era dado saber, pensava coisas que ninguém mais pensava.

Por baixo das anedotas que a seu respeito se contavam, talvez por ele incentivadas, escondia-se um ser pensante, quase genial, que raciocinava a galope e chegava a conclusãos que causavam estranheza, inveja, até repulsa à chã farronca do comum dos mortais.

Fizeram troça dele, abandonaram-no – em boa verdade não sei se foi ele quem abandonou os demais – riram-se dele na rua, das suas barbas grisalhas, dos seus dentes estragados, da sua roupa ridícula. Pior, muitos dos que lhe eram próximos recusaram-lhe a admiração e o respeito que lhe eram devidos. Não, ele não se importava, estava acima disso tudo.

Um dia em que passou de advogado a réu num tribunal plenário do salazarismo, apresentou-se de toga no respectivo banco. O juiz insistiu em que a tirasse. Ele acabou por obedecer. Tirou a toga. Estava nu lá por baixo. Vestiu a toga outra vez, por ordem do juiz. Foi preso, mas não por isso.

Várias foram as mulheres que por ele se apaixonaram. Nunca quis nenhuma lá em casa. Só a cadela o recebia, sempre alegre e reconhecida, quando, altas horas, ele metia a chave à porta. E se fosse uma mulher? – justificava-se, com uma graça sempre inteligente, mesmo que informada por uma misantropia visceral.

Os seus escritos, que transportava em bolsos imensos, quase a arrastar pelo chão, a contestação de Bernstein e Marx, as críticas ao senhor Soares (Mário), como ele lhe chamava, as suas teses sobre a nacionalidade, os descobrimentos, o miguelismo, sei lá, tudo deve estar perdido. Deve-lhe ter caído dos tais bolsos, já rotos, vítimas da usura e do desleixo.

Há Homens que muito poderiam ter dado, ou deixado, ao seu semelhante. Assim não aconteceu com João Carlos Camossa de Saldanha, não porque não tivesse produzido, e muito, mas porque nunca teve intenção de fazer disso honra.

Acabou os seus dias abandonado por si próprio e por quase todos os que muito lhe deviam, mas “achado” por um Amigo, daqueles que se pensa que já não há. Dos poucos que nunca fizeram troça dele, nem acharam que a sua “originalidade” era um defeito, nem se penduraram na sua argúcia em benefício próprio.

Adeus, João, obrigado pelo que me ensinaste, obrigado por nunca me teres traído, obrigado pelo desprezo a que votaste tanto oportunismo e tanta porcaria que andou à tua volta. Aprendi muito contigo, sabes? Se calhar nunca to disse. Paciência, olha, não sei se valeria a pena, não sei se há muito que valha a pena, para além de poder olhar para o espelho e não sentir vergonha.

 

António Borges de Carvalho


12 respostas a “JOÃO CAMOSSA”

  1. E este País cada dia mais pobre…

    1. Avatar de Francisco Peixoto
      Francisco Peixoto

      Conheci o Dr. João Camossa em 1980 numa conferência no Colégio Pio XII, em Lisboa, e desde logo fiquei subjugado pela sua imagem e pela riqueza da sua tão singular personalidade. Evidentemente que ao longo dos anos que se seguiram fui aqui e ali procurando saber mais sobre o Dr. João Camossa. Apenas o encontrei mais uma meia duzia de vezes e que se limitaram a cumprimentos reciprocos e cerimoniosos. Encantou-me ler os testemunhos neste blog. Todos nós precisariamos de ter maiis ” materealizado” e disponível estes e outros depoimentos. Quem privou e melhor conheceu o Dr. Camossa não poderia pensar seriamente em editar sobre ele um livro? Penso que seria um acto de justiça e um grande enriquecimento para muita muita gente, a quem o exemplo do Dr. João Camossa confortaria e animaria.Francisco Peixoto

      1. Obrigado pelo seu comentário. É difícil fazer justiça a uma personalidade tão fora do habitual como o João Camossa.Fez-se, no ano passado, uma sessão evocativa no Centro Nacional de Cultura.Quanto a um bem merecido livro, o problema é o de haver pouca ou nenhuma evidência material do muito que que escreveu e disse. Talvez reunir um grupo de pessoas que tenham memória dele. Tristemente, porém, já pouco ou nada resta da sua geração. Conheci muita gente desse tempo que o conheceu bem e privou com ele, mas, puxando muito pela cabeça, encontro só um. Por outro lado, seria preciso um “carola” que tivesse memória e alguma documentação. Talvez o Jacinto Simões, mas também já lá vai…Cumpr. ABC

  2. Obrigado por me ter dado a conhecer o personagem, que me era completamente desconhecido (vim pelo Almocreve das Petas). Há livros dessas teorias, esse pupilo não nos dará a conhecer melhor a pessoa, não teremos alguém que se dê ao trabalho de contar a sua vida, que me parece exemplar?

  3. caro António Borges de CarvalhoSou o parente mais próximo do João Camossa, que muito admirava. Eramos primos mas ele tratava-me sempre por sobrinho. Não sei se o conheci, a si, no funeral do dia 19, mas gostava de o contacatar para lhe manifestar algumas intenções que tinha com vista a uma homenagem sincera à memória do João Camossa. O meu mail é joaoborgesdesign@gmail.com.Se me puder contactar agradeço e também muito agradeço as suas palavras neste blogge que me emocionaram.cumprimentosJoão Amorim de Carvalho Borges

  4. Hoje relembrei João camossa numa palestra que dei na faculdade de letras da universidade de Coimbra, sobre a oposição monárquica ao estado novo. Foi pouco o que fiz por essa personagem que tanto admirei. Mas deu-me muito prazer poder honra-lo desta maneira.

    1. Obrigado. João Camossa bem merece que o lembrem. Muitos há que o deveriam fazer e se “esquecem”.

  5. caro António Borges de CarvalhoSeria possível enviar-me um seu mail pessoal ou tel para eu o puder contactar? Gostaria de em Novembro realizar um encontro á volta da memória do João Camossa e gostaria de trocar impressões consigo.cumprimentos,João Borges

  6. Caríssimo Sr. António Borges de Carvalho. Foi com surpresa que ao passar uma vista de olhos pela Internet me lembrei de escrever na pesquisa (João Camossa ) e me ter aparecido este magnifica artigo em que é descrito com um rigor surpreendente toda uma personalidade da figura que tive o prazer de conhecer e partilhar amizade, como este homem impar que apesar de todas as características que tão bem são por si descritas, era único, mas, ele próprio fazendo parte de Lisboa (Toda a Lisboa), mas, também todo o País que ele amava, (muito à sua maneira), que nos contava Histórias, Factos, acontecimentos e narrativas, como ninguém, que apesar de ser como descreve um personagem pouco dado a grandes comunhões típicas das amizades comuns, era, sem dúvida um verdadeiro amigo, que sabia muito bem compartilhar as alegrias e tristezas do dia a dia, com algo invulgar (que qualquer cidadão comum tem dificuldade em entender ) e que era uma sabedoria e um conhecimento de tudo, especialmente uma cultura invulgar, que eram sempre acompanhados de uma humildade impressionante. Que mais poderá se dizer para além do que aqui já foi escrito? Por exemplo: o Camossa ” mesmo que não tivesse dinheiro (o que acontecia com regularidade), era capaz de ficar a dever em qualquer restaurante para que alguém em situações precárias se pudesse reconfortar. Depois pagava. Teria algumas birras, também é verdade, mas também tinha uma enorme capacidade de reaproximação e de perdoar se fosse caso disso. Pequeno Homem, mas grande espírito e enorme em convicções e culturalmente . Que ele me perdoe de só agora poder manifestar, mas este é um dos amigos que recordo para sempre, porque o merece, e porque com ele aprendi a saber muitas coisas que de hoje em dia fazem parte de mim mesmo. Um Abraço Do Francisco Luiz Machado Santos

  7. Avatar de ana maria vilela
    ana maria vilela

    Há personalidades que surtem em nós efeitos inesquecíveis – tal foi o caso do Dr. João Carlos Camossa de Saldanha que não conheci como jurista, como monárquico, como fundador do CNC, ou mesmo no desempenho de qualquer função académica ou política inerente à sua grande estatura. Repito, à sua grande estatura pois, embora baixo e débil pela avançada idade, tais características não sobressaíam na sua maravilhosa personalidade. Sem lhe saber o nome sequer, convivi com ele, assiduamente – tomávamos o mesmo autocarro. Foi, portanto, na paragem e durante os breves percursos, que os seus bons modos para com todos e a sua boa disposição, sem dias de chuva, cativaram, primeiro, a minha atenção e, depois, o meu respeito e admiração. De grande fineza de gesto e de palavra ao indicar-me que subisse para o transporte à sua frente, um acto que repetia, frequentemente, até ao último passageiro. Soube, acidentalmente, que à sua superior educação aliava também uma instrução superior ao ouvir alguém saudá-lo com um «boa tarde, senhor doutor».Um dia, a sua ausência na paragem prolongou-se para além do habitual. Tristemente, acabei por reconhecer-lhe a figura, no jornal, com a notícia do óbito. Li, então, alguns artigos de internet e ainda o excelente comentário neste blogue, referindo-lhe os predicados. Mas não posso deixar de referir o que mais me encantou no Dr. João Camossa – as suas qualidades de perfeito cavalheiro e a sua inigualável nobreza de trato.

    1. Vejo que muito deve ter vasculhado o IRRITADO para ir descobrir um post com mais de dois anos. Obrigado.O meu grande amigo João (que pouco vi quando v. o via) era tudo o que diz, e muito mais. Homem de grande cultura, de uma inteligência invulgar, sabia ser amigo e ser mordaz, sem nunca ofender. Infelizmente, as suas qualidades humanas eram grandes demais para o comum das gentes. Delas se afastou, remetendo-se a uma misantropia que, durante alguns anos, perdidas as suas parcas fontes de rendimento, o lançou numa situação de quase miséria e de abandono de si próprio. Um grande amigo dele, prof. Jacinto Simões, notável por muitas razões, mas ainda mais por esta, cuidou do João durante os seus últimos anos, restituindo-lhe a dignidade perdida e repondo-lhe a privilegiada cabeça “a funcionar”.É pena que, dada a sua modéstia e o seu desprendimento, não tenha deixado obra escrita, pelo menos em poder de quem a pudesse organizar e tornar pública.Fico muito feliz por ver que admirava, como eu, este admirável cavalheiro.

  8. Agora, estamos em finais de 2021, o nome de João Camossa surgiu-me no decurso de uma leitura e fui procurar na Internet, porque me lembro, tenho a sua imagem diante dos meus olhos, vê-lo em Linda-a-Velha, quem diria, ligeiramente curvado para um lado direito, parece-me agora, os bolsos do sobretudo cinzento (?) atafulhados de papéis dobrados. E eu (onze anos mais novo) pensava: “ouvi dizer que era monárquico (ideologia e forma de poder com que simpatizo muito) e, com esta sua excentricidade, só pode ser um homem genial (lembrando-me Agostinho da Silva que, com este, convivi um pouco). Fico sempre assombrado com pessoas geniais.

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