Há muito deixei de ser admirador do Senhor Presidente. Não é de estranhar, já que nunca admirei nenhum presidente. Mas reconheço que, institucionalmente, tem sido o melhor de todos eles: firme na defesa da estabilidade governativa, respeitador dos mandatos dos demais eleitos, produtor de alguns conselhos com pés e cabeça, nunca organizou congressos politiqueiros, etc. Muitas falhas terá tido, como aquela de aturar parvoíces a um checo de segunda, como as decalarações absurdas sobre as suas finanças pessoais, como o intolerável ridículo de andar sempre com a mulher à perna, etc..
Qual é o grande problema de Cavaco? Não ter sido eleito pela esquerda. Por isso, ao contrário dos seus antecessores, não tem “imprensa”.
Soares andou com a patroa a cavalo em elefantes e tartarugas na Índia, cheio de flores e turbantes. Em visita de Estado a São Tomé pôs-se em cuecas e foi tomar banho de mar deixando de boca aberta um monte de ministros engravatados. A “imprensa” rejubilou, elogiou, pôs-se de joelhos. Parecia um Rei!
Cavaco fez umas férias tropicais com a família, sem despesas para o Estado. Subiu a um coqueiro. Foi troçado, arrastado em fotografias gozonas.
Soares comprou um prédio ao senhorio, coitado do senhorio. Tem um casarão para os lados de Mafra, outro no Algarve, num local onde nenhum português seria autorizado a construir. Toda a “imprensa” acha muito bem. Cavaco, algarvio, julgo que já antes de ir para o poder tinha uma casa lá na terra. Foi objecto de acusações de pirismo pela “imprensa”. Depois, trocou de casa e andaram pelotões de pides a ver se lhe descobriam negócios pouco claros. Se não descobriam, insinuavam. Quis fazer uma marquise lá em casa. Foi perseguido pela Câmara e pela “imprensa”. Soares, é de julgar, nunca fez obras nas suas casas ou, se fez, câmara alguma se meteu com ele, nem nenhum jornal foi vasculhar o assunto.
Soares foi feroz e fundamentadamente atacado num livro por um ex-colaborador. O livro desapareceu, o colaborador também. Soares, de braço dado com a “imprensa”, ignorou os dois. Cavaco não pode escrever uma linha que a “imprensa” não torça, não use, não controverta.
Outros exemplos, com outros presidentes, se podem alinhar. Não valerá a pena. O que está demonstrado, está demonstrado. Para a “imprensa”, se se é eleito pela esquerda, tudo bem, todos os disparates, todas as patadas na poça, até golpes de Estado, nada há que mereça qualquer “toque” menos elogioso.
Razão tem o Vasco Lourenço. A nossa democracia ou é de esquerda ou não é democracia.
14.3.15

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