IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


TEMPO DE RECUAR

Nos ominosos tempos da ditadura, dita fascista, era o IRRITADO, obrigatoriamente, membro de um sindicato qualquer da “corporação da indústria”. Descontava 1% do seu salário para a organização. No dia 26 de Abril de 1974, todo contente, mandou o sindicato pentear macacos, e nunca mais se meteu ou deixou que o metessem em tal tipo de agremiação. O PC ainda tentou, à força como na anterior ditadura, restaurar o sindicalismo obrigatório. Acabou por não conseguir, mas manteve até hoje basta influência naquelas coisas, arrogando-se até o direito de, através delas, “representar” quem trabalha, ou acha que trabalha. Coisa, aliás, aceite como tal pelo poder político e pela opinião generalizada que o socialismo criou.

Vem isto a propósito de um dos projectos da nova organização que agrupa umas dúzias de grupelhos que, mui democraticamente, acham que é “tempo de avançar”. Para onde? Dizem eles, por exemplo, que há que “reforçar a centralidade da negociação colectiva”, isto é, tirar a cada um o direito de se expressar por si, de contratar o que acha que lhe convém e de usar mecanismos do Estado de Direito se vir ofendidos seus interesses. Para esta gente, a liberdade individual e a “preocupação com as pessoas” leva a “centralizar” os seus interesses e em dar o privilégio da representação de cada um a organizações que cada um não representam.

Mas há mais. Os cerca de cinquenta movimentos, associações, partidos, filarmónicas, etc., ansiosos por avançar (só líderes são três por cada cinco filiados), querem estabelecer um “rendimento básico” para toda a malta e acabar de uma vez por todas com o “carácter assistencialista” dos subsídios actualmente em vigor. É de saudar esta tão inteligente medida: acabar com excepções descriminatórias. Existes, logo recebes. Um aumento do rendimentos para todos nós! Ficamos também a saber que os tostões que o Estado dá passarão a muito melhores porque deixarão de ser “assistencialistas”, isto é, um euro não assistencialista vale mais que um euro assistencialista! Uma descoberta digna de manuais para a educação de adultos mais ou menos analfabetos. Contra os subsídios assistencialistas, avançar, avançar! É tempo!

Nesta senda, nada melhor do que “valorizar o salário mínimo”, isto é, aumentá-lo, presume-se que para mais ou menos igual ao do Luxemburgo. De onde vem a massa? É de presumir que da mesma inesgotável fonte de onde brota o “rendimento básico”, seja ela qual for.

A decorar o ramalhete vem o “condicionamento das instituições de crédito”, obrigando-as a juros de excepção para as pequenas e médias empresas. Por outras palavras, juros determinados pelo Estado. Desiluda-se, meu caro, se esta malta mandar, você nunca mais poderá discutir os juros com os bancos. A coisa fica planificada. Igualitariamente!

É bom não esquecer que, quando o “Avançar” avançar, as privatizações serão ”travadas” e as empresas já privatizadas serão objecto de “recuperação para a esfera pública”, isto é, nacionalizadas. Pois então! A árvore das patacas vai chegar para tudo? Talvez não. Deve tratar-se, como é natural e lógico, de nacionalizações segundo o sistema do MFA, caso em que serão de borla. É tempo! Tempo velho, mas tempo.

Ah! É verdade, há que “desencadear a renegociação da dívida”. Vá lá, que desta não dizem “não pagamos”, o que é, pelo menos, uma inqualificável cedência burguesa. Há que chamar a atenção da rapaziada para estes lapsos.

E também “avançam” numa receita tipo CDS! Como, evidentemente, não precisam de dinheiro, vai de baixar o IVA, desta vez com o carinhoso nome de “realocação e distribuição das taxas”. Claríssimo,não é?

Ia passando em claro a magna questão das “remunerações exorbitantes”, que serão objecto de “contenção”, e cuja exorbitância será, é de julgar, objecto de determinação colectiva dos juízes do “Avançar”. Presume-se que se refiram a alguma intervenção na esfera privada, já que, na pública, remunerações exorbitantes… não há. Mas, na opinião dos convencidos convencionados, a esfera privada é coisa para acabar, devendo ser esta a explicação para os objectivos formulados.

Garantir a “universalidade no acesso às funções sociais do Estado”. Esta, à primeira vista, parece contraditória. Ricos, remediados e pobres, todos com as mesmas condições de acesso. Mas não é. A verdade é que, se os altos ideais destes paraquedistas vingassem, todos seríamos igualmente pobres, o que conferiria impecável justiça ao tal acesso.

Como diria o poeta, “acabava, quando uma núvem que os ares escurece / sobre nossas cabeças aparece”, ora corporizada por esse alto objectivo, que irmana os circunstantes na sessão com o impagável Rio e o parlapatão Costa: a “regionalização”. Uma bela rosa a colorir o bouquet.

 

Para já, é tudo. Há os que comem disto. Poucos, mas maus.

 

2.2.15

 

António Borges de Carvalho

 

PS, O IRRITADO desafia os ilustres economistas da nossa praça a quantificar os custos da operação do “É tempo de avançar”, bem como a dar-nos algumas pistas sobre a natureza de qualquer eventual árvore das patacas.



8 respostas a “TEMPO DE RECUAR”

  1. Tem toda a razão, caro irritadiço, é “TEMPO DE RECUAR”!Na verdade, o “burlão politico” Pedro Passos Coelho que ganhou as eleições prometendo o contrário do que fez, deve fazer companhia ao “44”, porquanto pertence à mesma “equipe”! Não concorda?

      1. Porquê? Não mentiu?

        1. Não. Não mentiu. Foi enganado.Quem já anda a enganar, sem ter sido enganado, é o Costa.

  2. Uma nota sobre os «juros de excepção para pequenas e médias empresas»: Isso já existe, chamam-lhe PME Investe. O crédito tem uma taxa de juro inferior, e o Estado cobre a diferença. Os juros são assim iguais para todos (que usam o PME Investe), e são na prática determinados pelo Estado. Que escândalo!, não é? Não, não é. Essa de «discutir os juros com os bancos» é que soa a lirismo. Hoje a única discussão é se somos muito chulados, muitíssimo chulados, ou se nem dão crédito porque preferem canalizá-lo para mega-negociatas e especulação nos “mercados”. Mas há de facto algo a melhorar, mesmo sem mudar isto tudo. Em vez de o Estado cobrir a diferença, o juro do PME Investe devia ser o juro total. A Banca já ganhava o dela, tudo a mais é mamanço. E sim, seria o Estado a impor isto. Tal como devia impor regras aos lucros obscenos da energia, dos combustíveis, das comunicações, etc. Se não for o Estado a limitar a mama, quem será? A “mão invisível”?

  3. Estamos sempre a aprender, Irritado: «Deputados alemães propõem cobrança de impostos aos milionários gregos Deputados alemães da CDU, partido liderado por Angela Merkel, pediram a Atenas para tributar as fortunas dos milionários gregos, sobretudo dos armadores. Os armadores têm lucros anuais [declarados…] superiores a 17 mil milhões de euros, e a ISENÇÃO DE IMPOSTOS sobre os seus lucros está protegida pelo artigo 107 da CONSTITUIÇÃO grega.» E esta, hã? Quer-me parecer que aqui já é a favor da Constituição, e contra a Merkel…

    1. A Constituição grega, como muita coisa na Grécia, é fruto da desgraça do referendo que acabou com a monarquia e, daí, com os restos de decência que ainda por lá havia. Sendo verdade o que diz dos armadores (coisa aplicável a muitos outros), é evidente que têm que ser taxados, pelo menos como os demais.Pelo que a sua suposição é, ou mal intencionada, ou completamente absurda.

      1. Bem me parecia que a culpa era de um referendo. Os referendos são coisas horríveis… sobretudo quando a Monarquia perde. Quanto aos armadores, os mamões são iguais em todo o lado: se é para pagar, piram-se. Há sempre um paraíso fiscal à mão, e um “consultor” – podemos recomendar-lhes o Arnaut – pronto a guiá-los. E convém recordar que é pelas grandes fortunas, pela concentração do capital, que se afere a prosperidade dum país… pelo menos foi o que li por aqui.

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