IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


AINDA O CHARLIE

Dada a monumental berraria que por aí anda, parece nada justificar que o IRRITADO volte à carga com a história do “Charlie Hebdo”.

Apesar de tudo, há alguns detalhes que não será dispiciendo referir.

O primeiro diz respeito ao mais recente boneco que o “Hebdo” publicou, ou vai publicar e que aparece em todos os jornais: o senhor Maomé (julgo que seja ele o retratado), com cara de caso, ostenta um papel que reza o sacramental “Je suis Charlie”; por cima, uma legenda diz que “Tout est pardonné”.

Ainda não vi quem, para além dos obrigatórios elogios à coisa, explicasse o que aquilo quer dizer. Será que os cartunistas vêm comunicar que Maomé, em representação da generalidade dos muçulmanos, vem dizer que não está de acordo com os assassinos, sendo ele também “Charlie”? Se assim for, a frase por cima quer dizer que lhes perdoa? Se os condena, tão precipitado perdão é, pelo menos, absurdo. Será que são os cartunistas a comunicar que perdoam, quais Cristos, a quem lhe matou os colegas? Não parece lógico. Será que os autores do boneco estão a pedir perdão das caricaturas tidas por ofensivas do Islão, ou seja, é uma oferta de tréguas? Ah!, é verdade, o boneco do Maomé tem uma coisa a que chamam lágrima. Está a chorar porquê? Porque morreram os jornalistas ou porque morreram os que os massacraram? Ou os polícias?

Venha o mais pintado fazer a hermenêutica da críptica mensagem.

Eu sei que a minha inteligência está muito abaixo de muitos dos meus colegas mortais. Às vezes, dou comigo a decifrar cartunes, por aí publicados no “Expresso” e não só, e a pensar: que quer este gajo dizer com isto? Uma vez por outra, com algum esforço, interpreto, quantas vezes sem saber se a minha interpretação interpreta como deve ser. Paciência, como dizia acima, trata-se de gente para-genial, com todo o direito a gozar com a malta. Deve ser o caso deste Maomé.

Outro assunto. E se eu publicasse um boneco com a dona Maria Cavaco em trajos menores, a dar com uma moca nas bimbas do Santana Lopes? E se eu publicasse um boneco com o Cardeal Patriarca, com ademanes de horizontal, a engatar rapazinhos à porta da Casa Pia?

Onde acaba a piada e se entra no insulto? No Charlie Hebdo, o papa a elevar um preservativo, com um fundamentalista judeu e outro muçulmano a seu lado, o que é?

A intocabilidade da liberdade de expressão, que não se põe em causa, tem limites em todas as democracias. A França, por exemplo, manda para o chilindró quem diz coisas anti-semitas, a “compreensão” ou nagação do Holocausto é crime, etc.. Então, é proibido dizer cobras e lagartos dos que ofendem a democracia, a “Republique”e os judeus, ao ponto de os prender, mas não é proibido fazer o mesmo com o cristianismo e o muçulmanismo?

Entendamo-nos: matar os jornalistas do “Charlie” foi um crime hediondo, abominável, repugnante, como os são os do Boko Haram, da Alcaida, e de tantas outras organizações de inspiração semelhante. Entendamo-nos: a liberdade de expressão é um bem precioso. Como todas as liberdades tem os seus limites nas dos outros e no respeito pelos outros. A sátira, a troça, a irreverência, a diatribe, são direitos, ou armas preciosas de todos nós. Mas há limites.

Posto isto, espera-se que a indignação que, com toda a justiça, o caso causou, sirva para defender a segurança e liberdade de expressão das pessoas, não para “santificar” os abusos que, à pala dela, se cometem.

 

14.1.15

 

António Borges de Carvalho



7 respostas a “AINDA O CHARLIE”

  1. Perfeito100% de acordo com o texto.O assaassínio dos satíricos e pessoas é condenável e todos nós nos devemos revoltar contra esses assassinos-terroristas.Do mesmo modo também deveremos condenar e indignarmo-nos quando alguém em nome da liberdade de imprensa insulta os outros e as suas crenças.

  2. Há algum tempo, ofender a Igreja Católica não dava cadeia – dava direito a tortura, seguida de churrasco. E não era churrasco de frango. Claro que isso já lá vai, e ao Irritado não convém lembrá-lo. Hoje, até onde me lembro, no Ocidente só duas ofensas verbais são sempre ou quase sempre punidas: incitamento grave à violência, e a “negação” do Holocausto. Coloco a negação entre aspas, porque na verdade não é preciso negá-lo… basta questionar algum aspecto dele, até a sua maiúscula. Mas adiante. A questão do Irritado é pertinente: onde acaba a liberdade do humor? Eu tenho dificuldade em definir esse limite. A razão é, digamos, ontológica. Pode-se fazer pouco de tudo, porque tudo é pouco. Quero dizer: nada é total ou absoluto. As pessoas e as ideias são circunstanciais, transitórias, o bíblico pó que a pó voltará. Hoje Maomé, ontem Cristo, antes um desenho numa caverna, amanhã quem sabe. Gozar com a nossa efemeridade, com a importância relativa de tudo – «o que está tudo isto a fazer aqui?», indagava Pessoa – é a nossa pequena, a nossa única vingança possível. Claro que não gostamos se o gozo nos afectar pessoalmente, como sobre a morte de um ente querido, e há humor de bom e de mau gosto. Mas no fim, que importa realmente? Como dizia o personagem de um filme, “On a long enough time line, the survival rate for everyone drops to zero”. O sentido da vida, a existir, não é grave e pesado, é leve como o humor. A morte é a derradeira piada. E a fechar: se amanhã um asteróide grande o bastante bater na Terra, imagine o piadão que tudo isto, hoje tão importante, vai ter. A haver extraterrestres a assistir, desde o início dos tempos, vão partir a moca.

    1. Interessante e inteligente comentário, ainda que niilista.Como vamos a caminho do pó, o que temos é o que existe, não o que passou ou há-de vir. Como cada época tem os seus valores não é porque já foram outros que nos cabe culpar ou absolver. Interessa os que existem. Donde, reduzir tudo à circunstância e procurar desculpas históricas pode excitar-nos intelectualmente, mas não leva a outra coisa que não seja a expressão de tal excitação.

      1. Entendo a sua visão como uma necessidade (normal) de referências: se existo aqui e agora, o que existe aqui e agora deve ter valor. De contrário, que valho eu? A religião serve essa função. Fornece referências absolutas num mundo relativo – o bem e o mal – e valoriza o Eu, conferindo-lhe uma dimensão mística – a alma, o além, a eternidade. Só que, como todas as realidades construídas, tem de se levar a sério. O humor corrói a ilusão. É como ter um tipo atrás de nós no cinema, a gritar “é só um filme!”. Claro que é só um filme; mas nós queremos acreditar nele. Temos de calar o tipo. Daí as fogueiras medievais, ou os radicais islâmicos. É preciso calar o humor, a dúvida, a relatividade das coisas, e devolver ao mundo as suas certezas graves e pesadas, tão ao gosto das religiões. E daí pessoas como o Irritado, ou o Perfeito que comentou antes de mim, serem contra quem insulta crenças. Para mim, nada é tão digno de gozo como uma crença. A realidade é como é, a crença é como quisermos que seja. Lembra-se certamente d’”O Nome da Rosa”, do Umberto Eco: vários eram assassinados por causa de um livro. Qual era a ameaça do livro?

        1. Viva a sátira, o humor, a verrina!Abaixo o insulto, a baixeza, a ofensa gratuita!

  3. «Cuspir na alma de alguém» é sempre muito perigoso, sobretudo quando esse alguém está constantemente a ser humilhado vendo aqueles que lhes estão próximos serem dizimados aos milhares.Aconselho para uma boa documentação factual o blogue «Portadaloja».

  4. Você não passa de um islamonazi irritado. Espero que os muçulmanos lhe façam o mesmo que fizeram aos do Charlie e aos judeus da mercearia judaica, sua besta maldita. Apodreça no Inferno!

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