Há muitos, muitos anos, os meninos “ricos” frequentavam colégios particulares, os meninos “pobres” Escolas “da Câmara. É claro que não era bem assim, havia meninos “ricos” na escola da câmara, porque os pais eram severos, e meninos pobres em estabelecimentos particulares, porque os pais se sacrificavam por eles ou porque não tinham aproveitamento que se visse.
Julgo que as escolas ditas da câmara foram fundadas durante a I República. Só davam a instrução primária, até à quarta classe. Depois, os meninos “ricos” iam para escolas privadas, ou para as públicas, pelo menos até começar a levar uns chumbos e, por consequência, a ser transferidos para o ensino particular, tido por mais fácil. Os meninos “pobres” iam para os liceus do Estado ou optavam pelas “escolas técnicas”, coisa com que a III República acabou. Mais uma vez, não era bem assim. Lembro-me que, nos liceus onde andei, Passos Manuel e Camões, havia desde alunos da muito alta até alunos da muito baixa.
As escolas da câmara acabaram, o Estado tomou conta de tudo e mais alguma coisa, com as consequências que são conhecidas.
Parece que, agora, se gera por aí a tendência de reentregar as escolas às câmaras. Não se sabe se se trata de as autonomizar se de as manter nas baias dos ditames do ministério. De qualquer maneira, parece óbvio que, passando as escolas, pelo menos em termos administrativos, para a tutela dos minicípios, se ganharia em proximidade e em concorrencial qualidade. Por outro lado, perdida a centralidade, perder-se-ia também o poder “nacional” dos sindicatos que enxameiam o ensino e que são fonte de desorganização e de tratamento único de problemas as mais das vezes locais e diferenciados
Razão pela qual a tenebrosa Fenprof, estrutura comandada pelo comité central do PC, veio já sangrar-se em saúde, recusando, por exemplo, “a tutela municipal sobre os docentes”. Ora vejam como, afinal, estes senhores defendem o poder Ministério, estrutura normalmente objecto das suas vaias, dos seus insultos e do seu mais rasgado ódio. Se o Ministério deixar de ter certos poderes, as fenprofes da nossa praça passam a ter uma miríade de inimigos em vez de um só, uns por isto outros por aquilo, arriscando os contestatários a ter muito mais trabalho para manter viva a chama da bordoada e, provavelmente, atrasando a constitucional “construção do socialismo”. Uma chatice. Até será possível que o município A pague melhor aos professores que o minicípio B, o que será uma machadada no sacrossanto “princípio da iguldade”.
Não é infelizmente provável que o Estado tenha guts para promover uma “reforma” tão profunda como isso. De qualquer maneira, o xarroco dos bigodes e o Carlos tratam de desatar desde já aos gritos, não vá a coisa ir para a frente. A ver vamos.
2.7.14
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário