A homenagem ao General Eanes merece uma pequena reflexão.
O IRRITADO, não tendo nada de espacial contra esta personalidade, na qual jamais votou ou votaria, fugiria à sua natureza se não deitasse um pouco de água fria na fervura eanófila que por aí anda.
Não há dúvida que, no 25N, foi Eanes quem deu as ordens necessárias a pôr em marcha a derrota militar das mentalmente corruptas ou ignorantes gentes do MFA, que vinham funcionando como guarda pretoriana do PC. Mas também foi ele quem coonestou a “salvação” do PC e a sua integração sem condições no concerto dos partidos democráticos, coisa que o PC nunca foi. Tal integração foi um desmedido exagero. Não se trataria de ilegalizar a sinistra organização, mas de denunciar claramente o papel que tinha desempenhado, antes e depois do 25A, para evitar a todo o custo que se institucionalizasse uma democracia liberal, intenção aliás confessada por Álvaro Cunhal quando garantiu que jamais tal coisa aconteceria em Portugal, com certeza porque ele não o consentiria… Tratava-se de pôr o PC no seu lugar. Fez-se o contrário, com o apoio de Eanes.
Na sua primeira candidatura, Eanes foi o candidato da direita, pelo menos no sentido de não ter sido apoiada por nenhuma das variegadas esquerdas que por aí vicejavam, sem contar com o PS, que se dividiu. Tratou tão bem os que o tinham eleito que, à segunda candidatura, o PM Soares, zangado, se lhe opôs. Dando sinais claros da sua estrutura ideológica(?), Eanes foi, desta feita, o candidato da esquerda! Opôs-se ferozmente à revisão constitucional de 1982, que desmilitarizou o regime.
No fim do mandato, aborrecido com os partidos que a democracia tinha gerado, resolveu aproveitar a embalagem que trazia de Belém e os justos louros adquiridos no 25N para fabricar um novo partido. O IRRITADO lembra-se que, nessa época, escreveu uma local em que referia que o PR tinha usado um helicóptero da Força Aérea para ir a uma reunião com os demais fundadores do tal partido. O jornal foi processado mas, obviamente, absolvido. Um fait divers sem importância, mas com algum significado.
Foi o tal partido que deitou ao chão primeiro governo de Cavaco Silva, abrindo a este as portas para duas maiorias absolutas! Como é lógico o partido eanista teve um fim triste, morreu sozinho, sem que ninguém o tivesse empurrado para o abismo do esquecimento. Não era bem um partido, era uma coisa um pouco à imagem do chefe: sem ideologia, apregoando ética, honestidade, etc.. É claro que se consumiu em questiúnculas internas, em malandrices pessoais, num ridículo sem nome… nem “ética” nem nada.
Para além disto, o segundo mandato saldou-se por uma série de intervenções, mais ou menos bem intencionadas, mas que outro significado não tinham que o de contínuas “lições de moral” a estes e àqueles.
Depois, bem acomodado no seu lugar de ex-presidente, bem reformado aos 50 anos, Eanes dedicou-se à vida privada, e fez muito bem. Assim fizessem Sampaio e Soares! Recusou o marechalato, recusou um dinheirão de retroactivos do Estado, levou uma vida sem mácula, pelo menos que se saiba. É hoje um pai feliz e um avô babado. Está no seu direito.
Tudo isto para dizer que, se Eanes merece toda a consideração pessoal, como político, para além de um momentâneo e bem sucedido papel determinante, não é líquido que mereça as ternas homenagens de que é alvo.
Que continue a ser feliz, é o que o IRRITADO lhe deseja. Mas que não ligue aos que o incensam, porque o que fazem é servir-se dele.
28.11.13
António Borges de Carvalho

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