A Pátria inteira ficou estarrecida com a notícia de uma iniciativa política tendente a restringir a quatro (dois cães e dois gatos) o número de tais seres vivos admitidos em apartamentos. As baratas, os percevejos, as moscas,os piolhos e as pulgas não são contemplados.
A dona Cristas viu-se objecto da maior troça, coitadinha. Foi obrigada a reagir. Estranhamente, a emenda saiu pior que o soneto.
Passo a explicar. A senhora veio esclarecer o povo: não, não era uma iniciativa política, nem ia haver nenhuma lei a determinar a coisa, já que o governo tem mais com que se preocupar. Até aqui, coma-se. O pior é o resto. É que se tratava, segundo a distinta ministra, apenas de um “estudo” sobre a gatal/canina matéria, estudo que o ministério anda a fazer há sete anos. Sete anos! Uma iniciativa do governo do senhor Pinto de Sousa, que a dona Cristas, em vez de mandar para o caixote, deixou prosseguir, assim ocupando o tempo de, com certeza, vários técnicos especialistas, veterinários, biólogos , psicólogos, sociólogos e outros ários e ólogos, certamente abundantes lá no ministério. O que esta gente pariu, sob o olhar carinhoso da senhora, deve ter valido o tempo ocupado na gestação. Tempo esse que o pagode pagou. Demonstração clara do que é e de como se entretém uma parte substancial do funcionalismo que, por ordem do todo poderoso Tribunal Constitucional, não pode passar à peluda.
Quantos mais “estudos” deste calibre não andarão aí pelos ministérios é coisa que não se sabe ao certo, mas deve encher o tempo de inúmeros “servidores do Estado”. A burocracia, que nos custa milhares de milhões, quando não tem nada que fazer, inventa qualquer coisa para mostrar serviço. Fatalmente, essas quaisquer coisas têm a nobre utilidade de servir para chatear o cidadão.
Se se legislasse para pôr os donos dos animaizinhos a pagar a limpeza da trampa com que infestam os jardins, os passeios, as ruas, as árvores, compreender-se-ia. Se tais proprietários tivessem que pagar os custos dos canis públicos, dos veterinários públicos e de outras entidades que se ocupam destas matérias, seria bom. Se os cãezinhos mais ferozes fossem proibidos, muito bem. Se a sanidade pública fosse perturbada pelos animais de estimação e as autoridades públicas caíssem a quatro patas em cima dos proprietários, encantado.
Mas que se perca tempo a fazer “estudos”, pelos vistos autorizados e acarinhados pela senhora ministra, para determinar quantos canídeos e gatídeos podem viver em apartamentos, meus senhores, alguém não está bom da cabeça. Se um tarado qualquer resolver viver com quarenta cães e vinte gatos, que lhe faça bom proveito. A não ser, é claro, que perturbe os vizinhos, cause porcaria ou não pague a devida vigilância médico-sanitária.
Em democracia, como soe dizer-se, a parvoíce é livre.
31.10.13
António Borges de Carvalho

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