Quem ler as capas das revistas ditas cor de rosa fica impressionado com a quantidade de fulanas tidas por “famosas”, dos seus casamentos e divórcios, das quantidades industriais de namorados e ex-namorados, dos comportamentos sexuais deles e delas, de uma que diz que vai tatuar as partes e de outra que se queixa da aspereza das linguais carícias do parceiro. Iisto para ser “meigo” e decente em relação a tais e tão “famosas” criaturas, e não entrar em detalhes.
Quem passar, de relance que seja, os olhos pelos por tantos programas de televisão, ditos “reality show”, vê as mais rascas narrativas alcandoradas a espectáculo para o “povo”. Deve ser a cultura de que tanto se fala. Até o “serviço público” se dedica à propaganda de lésbicas e quejandos, ou apresenta filmes que fariam inveja ao canal do Playboy.
A chungaria mediatizada transformou-se num negócio florescente e dá ideia de ser o modo de vida de muita gente que adoptou a própria (má) fama como se fosse coisa exemplar, invejável e salutar. Por outro lado, os chamados media – os meios, em português – são capazes de achar que outra coisa não fazem senão “informação”, ou “legítimo exercício e uso da liberdade de imprensa”.
E as mamãs e papás que, embevecidos, põem miúdas e miúdos em exibições completamente impróprias de gente decente, se calhar achando que estão a preparar-lhes o caminho do futuro?
A chungaria é um cancro da nossa sociedade. Pensar-se-ia que se tratava de coisa de pequena burguesia mal educada. Mas não. Anda por toda a parte, entra em todas as classes socias.
Veja-se o caso deste filósofo e professor que, diz ela, dá porrada na mulher, a qual, diz ele, não passa de uma bêbeda incorrigível. E vem a outra mulher dele, também inteletual e universitária, declarar que o tipo lhe ferrou enxertos de meia noite, com pontapés e facas no pescoço, e mais, que se engrossava com bagaço e lhe pôs os cornos de toda a maneira e feito, julga-se que com cada macho que lhe passava pela frente.
Para o IRRITADO, que não é moralista nem tem nada a ver com a vida seja de quem for, estas e outras realidades de rasquismo militante têm, acima de tudo, o significado da total ausência de respeito dessa gente por si própria e pelo equilíbrio dos demais. Talvez o IRRITADO seja antiquado, talvez se escuse a perceber o mundo em que vive, talvez os seus valores de discrição, pudor social, dignidade pessoal, vergonha e outras coisas, já não sejam valores. Na filosofia triunfante, os valores do IRRITADO não passam de hipocrisia, cinismo, coisas a que a filosofia triunfante parece também ter mudado o significado.
Poderia dizer-se que estas coisas, não não deviam afectar o IRRITADO, já que não compra revistas cor de rosa nem vê “reality shows”. A verdade, porém, é que ninguém está livre de que lhe metam a chungaria pelos olhos dentro. Ela vai continuar, poderosa e imperial, a fazer correr rios de papel e de dinheiro, parecendo que o melhor seria “alinhar”. Xiça!
31.10.13
António Borges de Carvalho

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