IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


CARTA A MACHETE

 

Caro Rui Machete

 

A nossa geração viveu toda a juventude sob a mordaça e a “modéstia” de um regime ditatorial. De uma forma ou de outra, muitos de nós não acreditavam naquilo, ou já não acreditavam naquilo, ou faziam os possíveis por acabar com aquilo. A nossa geração foi causticada pelas guerras do ultramar, uns com muita convicção, outros com pouca, outros com nenhuma. Alguns, simplesmente, deram à sola, conquistando assim um cobarde prestígio.

Vinda a esperança de Liberdade no 25 de Abril, e o seu triunfo no 25 de Novembro, a nossa geração foi atirada para a frente. Você foi um dos que, de repente, apareceram deputados, ministros, de tudo um pouco. Ainda bem. Como político, nunca teve esataleca de maior, mas a sorte das coisas, alguma capacidade de flutuação, e uma grande convicção de si próprio, levaram-no a toda a parte. Não o invejo nem o critico por isso. Há coisas piores.

Os anos passam e, com eles, os altos e baixos da vida – no seu caso, até agora, só altos. Fazemos coisas boas, coisas discutíveis, coisas de bom senso, coisas mal pensadas. Somos velhos demais para não ter nada a esconder.

Surpreendentemente, a última crise levou-o às Necessidades. Ninguém contava com tal coisa. Com tanta gente mais nova, mais à la page, com mais fôlego, bons diplomatas, um ou outro membro do partido, o PM resolveu ir buscá-lo à arca dos “disponíveis” de antanho. Não se sabe o que lhe terá passado pela cabeça. Mais grave, V. aceitou! Em vez de se remeter a passar calmamente o que lhe sobra dos setenta anos e do resto da vida, que desejo longa e boa, decidiu meter-se onde já não era ou não devia ser chamado.   

O resultado foi pior do que tudo o que se poderia imaginar. V. tornou-se um especialista em meter os pés pelas mãos, em dar informações inexactas acerca de si próprio, expôs-se a ser apodado de mentiroso, até de corrupto. Que tremenda insensatez!

A sua inacreditável postura em Angola é de ficar de boca aberta. A pergunta era de fácil resposta. Não tenho nada com isso! O governo não tem nada com isso. Espero que tudo se venha a resolver sem problemas, mas não me compete mais que esperar.

Que fez você? Afirmou que as investigações em curso, em que estão envolvidos certos angolanos de alto gabarito, não passam de mera burocracia, que tinha boas informações sobre o assunto, e que pedia desculpa pelo incómodo.

Baixou-se, mostrou o rabo. O seu e o nosso.

Se mo perguntassem antes, juraria que nada disto era possível. Mas foi.


Agora, meu caro, há que olhar para o espelho e ver o que já conseguiu fazer para se desacreditar e àquele que teve a infeliz ideia de o meter num cargo para o qual, manifestamente, não não tem, ou já não tem, aptidões.

Há que ter a ombridade, a serenidade, o respeito próprio, para aliviar o governo da sua presença. Pela sua saúdinha, não queira fazer como Relvas, ou levar o PM a repetir o romance do Relvas, que tão caro custou.

Como diz o dito “não voltes onde foste feliz”, não é?

Saia com dignidade enquanto pode fazê-lo.   


Um abraço do IRRITADO.

 

5.10.13

 

Antóinio Borges de Carvalho



3 respostas a “CARTA A MACHETE”

  1. Quando ouvi este novo escândalo do Sr. Machete, vieram-me à cabeça duas coisas (e não, não foram os cornos – esses já lá estariam). A primeira foi pensar que é normalíssimo. Vivemos de calças nos tornozelos e mão estendida perante o ultra-corrupto regime angolano. Temos ainda menos integridade do que dinheiro. Com uma coerência cristalina, o Machete apenas disse a verdade. Logo, que seja: estamos tão cobertos de MERDA, neste caso de merda angolana, que haja alguém que ligue a ventoinha e espalhe esta merda. Que fique bem à mostra, à vista de todos. Não era o que o Machete queria fazer, claro, mas foi o que fez. A segunda coisa que me veio à cabeça foi como o Irritado abordaria a questão: mais branqueamento laranja, ou teria um assomo de isenção e dignidade? Ficou a meio caminho. Não defende o Machete, mas trata-o como um bom rapaz que passa por uma mera fase infeliz. Até um envia «um abraço» a este chulo encartado, cúmplice do BPN, e lambe-cus de criminosos. Enfim, cortar a direito nunca foi o seu forte.

  2. Novidades fresquinhas (do SOL) sobre o seu estimado Rui Machete: ———————————- «A remuneração de Rui Machete enquanto Presidente do Conselho Superior da SLN foi feita com dinheiro de uma das sociedades offshore do grupo BPN, a Jared Finance. No esquema arquitectado pelo grupo para fugir ao Fisco, esse capital era depois transformado em apólices de seguro de vida. O actual Ministro dos Negócios Estrangeiros foi pago em espécie, através deste mecanismo constituído na Real Vida Seguros, pertencente ao grupo. No entanto – segundo dados recolhidos na investigação criminal – os pagamentos continuaram a ser feitos EM DINHEIRO e, como tal, não foram declarados pelo BPN para efeitos fiscais. Pela sua presença em cada reunião, Rui Machete recebia cerca de MIL EUROS. Em Abril de 2009, Machete foi questionado se “alguma vez recebeu em numerário”. Respondeu então: “Todos os membros do Conselho Superior eram remunerados com senhas de presença pagas. Não posso precisar se eram pagas em numerário ou em cheque. Devia ser à volta de 1.250 euros por reunião”. Instado a esclarecer melhor, respondeu que os pagamentos eram “EM DINHEIRO”. O SOL quis saber se o ministro NÃO ESTRANHOU(!) este método de pagamento. “Desconheço quaisquer ligações ao offshore referido”, respondeu. Os esquemas de remunerações dos membros dos órgãos sociais constituíram uma prática generalizada na SLN/BPN ao longo dos anos. Uma auditoria feita em 2008 detectou elevadas saídas de dinheiro do Insular, num total de mais de 140 milhões de euros, registadas como “pagamentos diversos: remunerações prémios, comissões, patrocínios, entre outros”. MINISTRO VAI EXPLICAR-SE À AR Rui Machete é esperado hoje na AR. Além do seu pedido oficial de desculpas a Angola, por causa das investigações criminais em curso em Portugal, o ministro deverá ser instado a esclarecer porque é que afirmou numa carta ao deputado João Semedo que nunca foi accionista da SLN/BPN. O ministro já disse que se tratou de um “ERRO INVOLUNTÁRIO”, mas o BE quis que o Parlamento fizesse uma queixa ao Ministério Público, por crime de falsas declarações – pedido que foi CHUMBADO PELA MAIORIA PSD/CDS.» ———————————- O que está em causa já nem é o Machete, que está mais que apresentado. O que está em causa é quem o nomeou, quem reafirmou a sua plena «confiança» nele, e quem o segura hoje, após tudo isto. Tal como fez com o Relvas. Sim, Irritado: o que está em causa é a PODRIDÃO deste PM, e deste Governo. O seu fantoche Passista perdeu há muito qualquer benefício de dúvida.

    1. A propósito de Rui Machete, José Paulo Fafe, no seu blog, afirma que ouviu, em casa de seus pais, da boca do poeta e escritor José Gomes Ferreira, uma frase que lhe veio, mais uma vez, à memória – a propósito de um ministro que nunca o devia ter sido: “Isto é um país de pulhas de bem”.

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