Caro Rui Machete
A nossa geração viveu toda a juventude sob a mordaça e a “modéstia” de um regime ditatorial. De uma forma ou de outra, muitos de nós não acreditavam naquilo, ou já não acreditavam naquilo, ou faziam os possíveis por acabar com aquilo. A nossa geração foi causticada pelas guerras do ultramar, uns com muita convicção, outros com pouca, outros com nenhuma. Alguns, simplesmente, deram à sola, conquistando assim um cobarde prestígio.
Vinda a esperança de Liberdade no 25 de Abril, e o seu triunfo no 25 de Novembro, a nossa geração foi atirada para a frente. Você foi um dos que, de repente, apareceram deputados, ministros, de tudo um pouco. Ainda bem. Como político, nunca teve esataleca de maior, mas a sorte das coisas, alguma capacidade de flutuação, e uma grande convicção de si próprio, levaram-no a toda a parte. Não o invejo nem o critico por isso. Há coisas piores.
Os anos passam e, com eles, os altos e baixos da vida – no seu caso, até agora, só altos. Fazemos coisas boas, coisas discutíveis, coisas de bom senso, coisas mal pensadas. Somos velhos demais para não ter nada a esconder.
Surpreendentemente, a última crise levou-o às Necessidades. Ninguém contava com tal coisa. Com tanta gente mais nova, mais à la page, com mais fôlego, bons diplomatas, um ou outro membro do partido, o PM resolveu ir buscá-lo à arca dos “disponíveis” de antanho. Não se sabe o que lhe terá passado pela cabeça. Mais grave, V. aceitou! Em vez de se remeter a passar calmamente o que lhe sobra dos setenta anos e do resto da vida, que desejo longa e boa, decidiu meter-se onde já não era ou não devia ser chamado.
O resultado foi pior do que tudo o que se poderia imaginar. V. tornou-se um especialista em meter os pés pelas mãos, em dar informações inexactas acerca de si próprio, expôs-se a ser apodado de mentiroso, até de corrupto. Que tremenda insensatez!
A sua inacreditável postura em Angola é de ficar de boca aberta. A pergunta era de fácil resposta. Não tenho nada com isso! O governo não tem nada com isso. Espero que tudo se venha a resolver sem problemas, mas não me compete mais que esperar.
Que fez você? Afirmou que as investigações em curso, em que estão envolvidos certos angolanos de alto gabarito, não passam de mera burocracia, que tinha boas informações sobre o assunto, e que pedia desculpa pelo incómodo.
Baixou-se, mostrou o rabo. O seu e o nosso.
Se mo perguntassem antes, juraria que nada disto era possível. Mas foi.
Agora, meu caro, há que olhar para o espelho e ver o que já conseguiu fazer para se desacreditar e àquele que teve a infeliz ideia de o meter num cargo para o qual, manifestamente, não não tem, ou já não tem, aptidões.
Há que ter a ombridade, a serenidade, o respeito próprio, para aliviar o governo da sua presença. Pela sua saúdinha, não queira fazer como Relvas, ou levar o PM a repetir o romance do Relvas, que tão caro custou.
Como diz o dito “não voltes onde foste feliz”, não é?
Saia com dignidade enquanto pode fazê-lo.
Um abraço do IRRITADO.
5.10.13
Antóinio Borges de Carvalho

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