IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


NOBEL DA PAZ

 

Do Impéro Romano a Carlos Magno, de Carlos V a Napoleão, de Estaline a Hitler – a enumeração não é exaustiva – houve vários modelos de “União Europeia”. Todas elas fruto de guerras, chacinas, ocupações militares e sofrimento dos povos. Todas com a mesma “desculpa”: uma Pax Romana com o fromato que os tempos, as ideias e os cabos de guerra lhe deram. Sempre se fez a guerra com o objectivo final da paz, mas uma paz cujo alicerce foi sempre o domínio político e militar de uns sobre outros.

No século XX, também no seguimento de guerras, as piores de todas, duas “uniões europeias” nasceram. Uma, a Leste, à força das armas: a do pacto de Varsóvia. Outra, a Ocidente, fruto de nobres ideais: a União Europeia onde hoje vivemos.

Aquela, acabou por exaustão, ineficácia e cansaço de uma dominação tirânica.

Esta, fruto de um caldo de cultura em que se misturavam o horror à guerra, os interesses económicos e as ideias políticas, pareceu consolidar-se durante décadas.

Criou um gigante económico, mas um anão político. Por ser um anão político, está hoje em causa o gigante económico, e em risco de desaparecer. Como por aí à exaustão se repete, criou-se uma moeda comum, mas não se acautelaram os meios para o seu normal funcionamento. Criou-se um parlamento, que nada tem a ver com o conceito de poder legislativo, uma estrutura de utilidade discutível, mas que custa uma formidável fortuna. Estabeceu-se uma burocracia, à sua maneira todo-poderosa, mas que só trata de “regulamentos”, sem poder nem legitimidade política para muito mais.

A razão dos males europeus é simples e evidente. A solução é complicada, ou quase impossível. É que, não se tendo criado um verdadeiro universo eleitoral europeu, não se legitimou um poder que se quereria forte e equilibrador. Descurou-se a produção industrial, transformou-se o sector primário numa anedota dependente de subsídios, criou-se labirintos burocráticos caros e pouco “produtivos”. Quis-se fundar uma política externa, mas criou-se coisa nenhuma. Abandonou-se a ideia de poder militar, indispensável à segurança e à paz. Lá estavam os EUA para gastar dinheiro com essas coisas e proteger a União. Ainda estão? Não parece.

Em suma, a democracia formal, ou liberal, fundamento de todo o Direito e de todos os direitos, foi menosprezada. Os esteios da união económica dissolvem-se rapidamente.

Daqui, a crise. Ao primeiro abanão, renasceram os egoísmos nacionais, desapareceu a solidariedade, tudo a recordar os temíveis anos 20 a 45 do século passado.

Não sei se o que escrevo é realista, catastrofista, ou as duas coisas. Sei que, nas condições actuais, ou há um vigoroso salto político, ou o esboroar do ideal europeu é inevitável. Sei também que tal salto é quase irremediavelmente improvável.

 

Vem isto a propósito do Nobel da Paz que a União Europeia ganhou. Ganhou-o com justiça, se pensarmos que a Paz reina na Europa pelo mais longo período da sua história. Mas, por outro lado, o Nobel cheira ao crepúsculo de uma era: um prémio do tipo “brigada do reumático”, a tentar salvar e louvar o que já não tem remédio.


Pessimismo? Prouvera que sim.

 

13.12.12

 

António Borges de Carvalho



3 respostas a “NOBEL DA PAZ”

  1. É verdade, mas seria o projecto inicial realmente viável? Pensemos apenas no nosso canto da Europa: vê Portugal e Espanha a unirem-se mais do que isto, e a partilharem mais do que isto – a moeda, as fronteiras abertas, e, vá lá, uns tratados cheios de boas e vagas intenções? Mais do que isto, apenas forçados… mas e quem não pode ser forçado a nada – Inglaterra, Alemanha, Escandinávia? Já nem falo da Rússia, a maior potência europeia, que nem é europeia… Este falhanço pode atribuir-se aos políticos-fantoches medíocres, à canalha financeira que os manobra, à vontade que nunca existiu, aos rancores nunca ultrapassados; seja como for, todos perdemos. Uma empresa de rent-a-car americana, a Avis, tinha um slogan que ficou mundialmente famoso: “We try harder”. Pretendia demonstrar o empenho da Avis – que reconhecia ser a 2ª rent-a-car, após a Hertz, mas queria ser a 1ª. Este slogan durou uns 40 anos, e só foi mudado há pouco, para outro modernaço e anódino. Lembro-me desse slogan ao pensar na Europa: deixámos de nos esforçar. Primeiro país a país, depois em conjunto. Do 1º lugar incontestável descemos passivamente ao 2º, depois do 2º ao 3º, e continuamos a descer, sempre passivos. A Europa, creio, precisa do mesmo que Portugal: uma VASSOURADA. E, ao contrário de Portugal, tem peso e massa crítica suficientes para fazê-lo como quiser, sem depender de ninguém. O problema é que não se vê, neste sistema falido e corrompido, quem possa empunhar tamanha vassoura.

    1. Peço desculpa por ter dito que v. não comentava ideias. De um modo muito geral, até concordo consigo. O problema é que a sua “solução” – vassourada pura e simples – não leva a parte nenhuma que não seja a ditadura. No fundo e neste aspecto, não anda longe do Tecelão, que prefere as balas… é mais directo!

      1. Com excepção das liberdades ditas “fundamentais”, como a de dizer o que nos apetece – até porque não serve de nada – nós já vivemos numa ditadura. Esta é apenas mais sofisticada que as do passado, pois somos nós próprios que a validamos, elegendo os fantoches que a perpetuam. A vassourada que preconizo pode incluir algumas balas, se tiver de ser, mas a ideia não é trocar os fantoches por um ditador: é trocá-los por uma verdadeira democracia, em que cada Estado seja dos cidadãos, e não dos bancos ou dos “mercados”.

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