Tem o IRRITADO andado em vilegiatura moral por razões que a razão desconhece, nem vêm a propósito, nem ninguém tem nada com isso.
Posto isto, peguemos no assunto do dia, nada menos que mais uma douta intervenção do camarada Mário Soares no jornal do amigo Oliveira pelo menos por enquanto. Se os tipos do MPLA tomam conta da coisa, lá vai o Soares às urtigas de braço dado com o Oliveira. Terá que ir pedir batatinhas à doutora do jornal privado chamado Público. Enquanto o pau vai e vem gozam as costas e vai-se debitando umas bocas, que lá nos confins do bestunto o nosso homem deve achar que ainda há quem lhe ligue. E é que há mesmo, este país é assim.
Mal recuperada estava a Nação das emoções causadas pela carta que, sob a soaresca batuta, uma ínclita brigada do reumático mandou já não se sabe a quem, debitando cassetes que veem todos os dias nos jornais escrevinhadas por legiões de atacantes, eis senão quando nova intervenção surge a iluminar-nos o caminho. O escrito da brigada do reumático, coisa barata e ridícula, ou patética como muito bem disse o Pulido, já tinha três ou quatro dias de vida, o que é muito para tal patetice. Havia que insistir.
Para embrulhar o pacote, o autor de “O tempo e a memória” tratou de dar à diatribe o inocente título “A Palestina na ONU”. Em compensação, os arautos do amigo Oliveira espetaram em manchete de primeira página, com fotografia e tudo, a frase fundamental do escrito: “O povo não existe para o primeiro-ministro”. Tem piada que, no tempo do senhor Pinto de Sousa, o jornal escrevia Primeiro-Ministro. Pormenores.
E lá vem a Palestina. O homem tece umas considerações mais ou menos anódinas, não diz nada de novo. Se quisermos tirar alguma coisa do arrazoado, lá está nas entrelinhas a condenação do Netaniau e do lobby judaico dos EUA. Como é de timbre e fica bem.
Chega a cassete. O tolerante, o simpático Soares, perde mais uma vez a tineta, esperneando a intolerabilidade e a antipatia que é isto de haver um governo onde o PS não mete o bedelho. Malhas que o eleitorado tece, mas Soares não reconhece. Para ele, ninguém, mas absolutamente ninguém em Portugal apoia este governo. E descreve-nos a todos, dos médicos aos sacerdotes, dos militares de todas as patentes aos cientistas e aos rurais, numa interminável lista que a toda a gente inclui. Todos. Todos contra o governo. A este respeito “não há qualquer dúvida”. Não se sabe onde o ilustre articulista mete os 35% de pessoas que, segundo as sondagens, votam na coligação. Devem ser espanhóis, cartagineses ou visigodos.
A propósito do orçamento, entra em cena a sacrossanta Constituição. Ninguém gosta do orçamento. Esta magnífica descoberta tinha já sido feita pelo Primeiro-Ministro, que também não gosta e já o disse. Chega então, por uma questão de credibilidade, a trupe dos constitucionalistas de serviço, quer dizer, do PS ou apaniguados.
A Grécia, que está no estado em que está, também merece loas do senhor. Diz ele que não somos como a Grécia, mas “antes fôssemos”. O sono da razão engendra monstros, não é?
O artigo do ex-Presidente, ex-Primeiro-Ministro, ex-etc., já tinha dito o fundamental: morte a este governo! Depois, reembrulha a coisa com um capítulo sobre o congresso do PC, onde diz coisa nenhuma, para além de lamentar que não seja possível, com este PC, um verdadeiro governo de esquerda. Exactamente o mesmo que diz o camarada Jerónimo acerca do PS.
Finalmente, o raminho de salsa cultural. O fim do programa “Câmara Clara”. Um “crime”, acabar com o “melhor programa cultural da RTP”. “Uma indignidade”.
Correndo o risco de ser linchado na praça pública, o IRRITADO atreve-se a dizer que o tal programa, há uns sete anos no ar, talvez fosse intelectualmente uma maravilha, mas era também o programa cultural mais chato, monocórdico, entediante e pretensioso de que há memória. Que saudades do “Assim Acontece” ou das arengas históricas do doutor Hermano Saraiva!
Venham mais programas culturais, mas dos que não afastam as pessoas da cultura ou não a transformem em covil de “altas mentes”. Todas do PS, como é evidente!
4.12.12
António Borges de Carvalho

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