IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


DEMAGOGIA


Entre as relativamente poucas coisas certas que havia na Constituição de 76 estava a proibição do referendo.

Julgo que em 87, lá arranjaram as coisas de tal maneira que o referendo passou a ser possível praticamente para tudo. Exceptuavam-se os tratados. Uma excepção certíssima. Só é pena que fosse excepção, não regra. Mesmo assim, era uma manifestação de uns restos de bom senso.

Depois, já não sei quando nem porquê, a excepção deixou de o ser. O bom senso foi à viola.

É nisso que estamos.

O referendo é, quase sempre, uma arma perigosa. Os governos, os parlamentos, os presidentes da República, servem-se de tal instituto para atirar para as costas dos eleitores decisões que não têm a coragem de tomar no legítimo uso da legitimidade que lhes foi dada pelo voto. A verdade é que abdicam dela, assim ofendendo os eleitores e a democracia representativa, ainda por cima com o carimbo do recurso à “democracia” directa, isto é, proclamando que as decisões referendárias são as mais democráticas que imaginar se possa.

Como se pode, por exemplo, referendar tratados como o de Lisboa ou o actual tratado europeu, como defende a demagogia da esquerda? Quantos eleitores, mesmo com alguma preparação teórica, saberão tomar posição perante impenetráveis e complicadíssimos textos? Quantos terão pachorra para os ler ou, lendo-os, para os decifrar, ou ainda, decifrando-os, estarão em condições de saber o que significam em termos de futuro? O referendo não passa de uma batata quente metida na boca dos eleitores e de uma desresponsabilização daqueles que tinham obrigação de legitimamente decidir, arcando com as consequências do que assinaram. Se o povo disser sim e os resultados forem maus, a culpa é do povo. Se disser não, a mesma coisa. Que raio de democracia é esta? Para que servem as eleições? Para que serve o poder legislativo? Para que serve o governo? Para passar culpas ou para tomar decisões e ser responsáveis por elas?


Acerca do referendo, a demagogia é fácil, e fácil de vender aos incautos.

Cuidado!

 

11.4.12

 

António Borges de Carvalho



6 respostas a “DEMAGOGIA”

  1. Diz o Amigo, talvez com razão:”Quantos eleitores, mesmo com alguma preparação teórica, saberão tomar posição perante impenetráveis e complicadíssimos textos? Quantos terão pachorra para os ler ou, lendo-os, para os decifrar, ou ainda, decifrando-os, estarão em condições de saber o que significam em termos de futuro?”Pergunto-lhe eu:Está seguro de que aqueles que vão votar estão mais bem preparados e têm melhor compreensão do tratado?Eu, pessoalmente, tenho muitas dúvidas!

    1. Partilho das suas dúvidas. Mas aí, há o conhecimento das pessoas, do que fizeram ou não, há as ideias políticas, ou seja, há muito mais dados concretos para informar a opção de voto.

  2. Há algum tempo que não vinha cá. Vim hoje, e, não sei se por muito ou pouco azar, deparo-me com este texto absolutamente lamentável. Substitua-se “referendo” por “democracia”, retoquem-se umas palavras, e está pronto a ser utilizado por qualquer ditadura – seja comunista ou fascista. A premissa básica é esta: para botar o botinho, o povão é sábio e discernente; para tudo o resto, como decidir como são aplicados os seus impostos, é ignorante e burro. Ou seja, para dar TACHO, o povo é soberano! Depois… caladinhos, seus lorpas. Delegam-se assim todas as decisões em “representantes”, sempre dos mesmos partidos, com os brilhantes resultados dos últimos 35 anos. Eles mandam, eles decidem, eles atribuem-se as mordomias que entendem, e a carneirada baixa a cabeça. Pouco evoluímos desde o feudalismo. Em vez desta PARTIDOCRACIA, arruinada por “representantes” viciados, países mais evoluídos como a Suíça ou a Suécia tentam uma democracia mais DIRECTA, a única democracia digna desse nome. Dir-se-á que Portugal é diferente da Suíça ou da Suécia. Será, mas se nada fizermos é que nunca evoluiremos de certeza. Qualquer tratado, qualquer decisão ou compra importante, pode e deve ser explicada aos cidadãos, assim como a realidade das contas públicas. Só assim se pode votar em consciência. O argumento de que é “muito complicado” é ridículo. Em qualquer empresa ou organização, os decisores raramente dominam todos os aspectos da actividade. Como é óbvio, têm quem o faça, e lhes explique o essencial, para poderem decidir. Assim deviam ser os votantes. Em vez disso, temos apenas “programas eleitorais” de 4 em 4 anos, esses sim demagógicos, que não passam de pessegadas vagas e inúteis. Nada ali é para cumprir, nada é depois validado. E a verdade das contas públicas é escondida dos cidadãos, por um misto de incompetência e má-fé. Enfim, já vai longo o post. Saudações democráticas a quem prefere uma verdadeira DEMOCRACIA, e saudações feudais a quem tenta evitá-la a todo o custo.

    1. Julgo que seria melhor dizer qual é a alternativa, outra que não seja uma destas: a ditadura pura e simples ou a melhoria ou reforma das instituições que temos.Andar, simplesmente, a odiar tudo o que mexe, porque mexe ou deixa de mexer, não é alternativa nenhuma.Quanto aos referendos tradicionais da Suíça… ou não sabe do que está a falar ou confunde alhos com bugalhos.Seja bem regressado!

      1. Escrevi tanto, e não leu a alternativa? Uma democracia mais DIRECTA. Todas as decisões importantes do país, de cada governo regional, e de cada autarquia, podem e devem ser explicadas à população, e esta deve ser consultada através do voto directo. Um pesadelo logístico, estará a pensar? Nem por isso: grande parte dos votos podem ser, e já deviam ser, ONLINE. Já nos permitem (até obrigam) tratar assim dos impostos, da conta bancária, e de tudo o mais. Se a Internet é segura para isso, também o é para votar. E será que isso evita a abstenção, e as más escolhas, pensa a seguir? Claro que não. Mas é quase certo que a abstenção diminuía, se se pudesse votar de casa. Quanto às más escolhas, informar melhor as pessoas só pode melhorar o seu discernimento. E para todos os efeitos, são elas que PAGAM, e que viverão com as suas decisões, por isso cabe-lhes a elas decidir, melhor ou pior. E quem decide o que vai a votos? Pode-se criar regras gerais (investimentos acima de X euros, etc.), para tudo o resto pode existir a tal “Câmara alta” de já se falou aqui, cujos membros serão necessariamente apolíticos. Há aqui muita coisa que pode correr mal? Há, mas nada e ninguém é perfeito. Mal, pessimamente, já corre agora; só pode ficar melhor. Por último, uma confissão: eu conheço o país onde vivo. Conheço a ignorância, o relaxe, o egoísmo, os interesses corporativos, os interesses locais, e tudo o resto que pode inquinar uma decisão popular. Mas se os seus botinhos são bons para escolher políticos, também têm que ser bons para o resto – para o que realmente importa. Todo o objectivo, além da DEMOCRACIA (que hoje NÃO existe), é esse mesmo que o Irritado já deve ter percebido: retirar, pelo menos em parte, o poder a esta CANALHA POLÍTICA. Podemos não conseguir evitar todo o regabofe, todos os desvarios e compadrios, mas podemos evitar pelo menos os mais graves. Os políticos que decidam em casa deles. No país, deve decidir quem paga as contas.

  3. Sr. Irritado, a alternativa é o estado de direito com uma opinião pública que saiba ajuizar. A opinião pública que ajuíze é a pedra de toque porque representa a soberania esclarecida. O exercício da soberania em Portugal é uma violação constante do Código Penal.Se tal acontecesse até as vacas sagradas cairiam.Porque é que o estado em lugar de roubar pensões, salários, rendas e património imobiliário, não rouba (nacionaliza, corta, sacrifica, etc.) as acções de grandes accionistas portugueses e vende a chineses e outros para equilibrar as contas e pagar dívidas. Ladrão por ladrão que se assalte onde há dinheiro.

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