Não haverá, entre os que nos são politicamente próximos, outro país tão pluralista como nós no que à informação diz respeito. Em Espanha, no reino Unido, em França e por aí fora, os jornais, independentemente da sua seriedade informativa, têm cara. Sabe-se que o ABC é conservador e que o El País é de esquerda. O mesmo com o Times e com o Guardian, ou com o Figaro e o Le Monde. Os jornais, e outros meios, chegam ao ponto de, legitimamente, declarar o seu apoio ao político A ou ao partido B na altura das eleições. Os reguladores, onde os há, dedicam-se a tratar de problemas outros (abusos, investigações ilegais, ofensas à privacidade, etc.), nunca ao “pluralismo” de pensamento ou de informação.
Por cá, ideologicamente, os jornais são uma pessegada. O mesmo jornal é hoje da direita, amanhã de esquerda, segundo os humores ou os interesses do momento, do director ou do patrão. Por outras palavras, o pluralismo obrigatório falseia o pluralismo propriamente dito. É defensável que assim seja? Talvez.
Mas não exageremos. O nosso regulador, uma “entidade” qualquer cujo nome me escapa, anunciou majestaticamente que vai fiscalizar o pluralismo das televisões privadas. Em que consiste tal fiscalização? Mais ou menos no que segue: a “entidade” verificará, ao segundo, se o partido A, que teve xis por cento nas últimas eleições, teve o mesmo xis por cento na televisão, se as fotografias, as entrevistas, os debates, os takes, o diacho, respeitaram ou não o tal xis por cento. E assim por diante, com o partido B e os outros.
Entenda-se isto enquanto se trata desse monstro ignóbil que é a televisão do Estado. Já que existe… proteja-se a desgraça de tal existência.
Mas nos canais privados? Que é isto? Que liberdade é esta? Que tem a “entidade” a ver com a liberdade de informação, de expressão e de opinião? Que tem seja quem for a ver com isso? Amemos ou odiemos o canal A ou o canal B pelo que veiculam, não por causa do “pluralismo” cronometrado que uns tipos quaisquer fiscalizam. Estes, já que existem, que se dediquem a fiscalizar ilícitos, informação falsa, ofensas gratuitas e evidentes, enfim, actos que estão devidamente tipificados na lei como crime.
De resto, que tem a “entidade”, o Estado, seja quem for, a ver com a orientação editorial de cada canal?
É sabido, porque evidente, que os canais de televisão, privados e públicos, são poderosas máquinas de estupidificação colectiva. Mas aí, meus amigos, nada a fazer. É outra questão. Poder-se-ia criar uma espécie de polícia para ajuizar desta matéria. Mas, felizmente, não vivemos no Irão nem nas arábias.
E se os tipos da “entidade”, em vez de querer condicionar a informação fossem vender chuchas? Não seria melhor para todos? Não seria melhor para o pluralismo?
10.4.12
António Borges de Carvalho

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