IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


REGULAMENTARITE

 

Rezam as crónicas que um grupo de maravilhosos cidadãos, preocupadíssimos com a imagem de Lisboa, anda para aí aos gritos contra as esplanadas, o mau gosto das esplanadas, a falta de limpeza das esplanadas, o mau serviço das esplanadas, etc. e tal.

Nada a criticar. O IRRITADO está com eles de alma e coração.

O pior é que tais cidadãos outra coisa não querem senão que a câmara aplique os regulamentos que regulam a coisa. Como sempre, o pior é a câmara.

 

Uma amostra da “acção” da câmara no que respeita a esplanadas:

Acabadas as magníficas obras que os privados fizeram, apesar da câmara, no Campo Pequeno, apareceu uma data de esplanadas à porta dos restaurantes da praça de touros. Todas elas eram de bom gosto, grandes e claros toldos, mobiliário decente, etc.

Um dia, apareceu uma brigada municipal que mandou tirar aquilo tudo, aplicou multas, chateou os comerciantes e privou os munícipes da fruição das esplanadas.

Tempos depois, as esplanadas voltaram ao sítio, com os mesmos chapéus de sol, as mesmas cadeiras, tudo igual. Desta vez, a câmara não chateou, o que leva a concluir que, para ela, o que era inaceitável num dia, passava a excelente assim que o alarve da fiscalização estivesse bem disposto.

Houve também uns tipos que capricharam: fizeram grandes esplanadas, preparadas para receber clientes com chuva ou com sol, sofás, cadeirões, barbecus e mais não sei quê, desta vez de gosto discutível, mas constituindo uma mais valia para os cidadãos. Mais uma vez foi coisa de pouca dura. Os tipos tiveram que meter os tarecos num armazém, ou vendê-los ao desbarato, fecharam os estaminés e foram à vida.

Se calhar, mais dia menos dia, os humores camarários mudam, sabe-se lá porquê, e a tralha volta a aparecer.

Com gente desta não há nada a fazer.

 

Os maravilhosos cidadãos acima referidos acham que o regulamento não é aplicado. Foram falar com o Fernandes. O Fernandes disse-lhes, coisa extraordinária, que andava a “negociar” com a associação dos tasqueiros. Ou é mentira ou dá-se o espantoso caso de a câmara ter que negociar para aplicar os seus próprios ditames. Do Fernandes, tudo se pode esperar.

Vejamos agora, a título de exemplo, algumas maravilhas das directivas que a câmara aplica, ou gostava de aplicar, às esplanadas.

As toalhas de mesa têm que ter uma cor única.

Os chapéus de sol têm que ser de lona.

Os chapéus de sol têm que ser de cor branco cru.

Os menus não podem ser maiores que uma folha A4.

Os porta-guardanapos terão que ser de inox.

Daqui se conclui que a câmara não gosta de toalhas aos quadrados ou às riscas, mas poderão ser cor de burro quando foge.

A câmara não quer saber se os chapéus de sol são bons ou maus, impermeáveis ou não, grandes, pequenos, redondos ou quadrados, desde que sejam branco cru e de lona.

Os porta-guardanapos ou são de inox ou são proibidos. Nada de porta guardanapos de porcelana, nem que seja Vista Alegre ou de Saxe.

Se o menu for maior que uma folha A4, pimba!

Postas estas e outras exigências, verifica-se que a câmara se exime a examinar os projectos de decoração das esplanadas. Estas, mesmo horrendas, se cumprirem as normas acima e outras do estilo imaginativo do Fernandes, “verão a licença automaticamente passada”. Para quem conhece os “automatismos” da câmara, os deferimentos passivos e outras coisas pomposamente designadas por “SimpLis”, a licença automática deve ser coisa para levar dois ou três anos. Mas isso é pormenor.

 

Uma última observação, agora acerca dos incomodados cidadãos: não contentes com a aceitação acéfala das normas da câmara que querem ver aplicadas, acham, por exemplo, que a bela esplanada do “Nicola” é grande demais(!). ou seja, são mais camaristas que a câmara. Ora bolas!

 

1.4.12

 

António Borges de Carvalho



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