Não esqueço ter parado uma vez numa estrada das beiras para ouvir na telefonia do carro o que foi a declaração de uma espécie de “comunismo do Norte”, decretado pelo coronel (graduado!) Corvacho, comandante de uma estrutura militar qualquer, das muitas com que o MFA nos brindou.
Vão trinta e seis anos. O homem dominava a tropa acima do Mondego e estava em luta aberta contra quem quisesse instalar em Portugal uma democracia “burguesa”. Grande figura do sovietismo militar, Corvacho ameaçava tudo e todos os que se opusessem à imparável marcha das massas contra o imperialismo e o capitalismo e a favor do socialismo geral e obrigatório.
Lembro-me que tremi de medo, ali, só, nas serras beirãs, rodeado de penhascos e de urzes. Se o meu país vai ser um país de corvachos, para onde levar os meus filhos? Irei a tempo de fugir com eles? Esta gente ganhará?
Malas feitas.
O Corvacho (e o Cunhal, o Jerónimo e outros que ainda andam por aí) acabou por perder a guerra!
É verdade que, a começar pela Constituição, muito ficou da sua obra e da dos seus.
Mas também é verdade que, postas as coisas em melhor sítio e em melhores mãos, foi possível desfazer as malas e ir ficando por cá. Por cá estamos, tant bien que mal. Pelo algo livres, o que não seríamos, nem pouco, nas mãos desses encartados ditadores.
O Corvacho morreu. Gostaria de poder dizer que o veneno morreu com ele. Não posso. O veneno ainda anda por aí, sedento de vingança, mas sem a força de que, manu militari, dispunha naquele tempo.
As minhas desculpas. Sei que é feio dizer mal dos mortos. Até porque, como dizia Caracala, “aos mortos deve-se sempre a maior das homenagens, desde que tenhamos a certeza de que estão bem mortos”.
26.12.11
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário