Aqui há muitos, muitos anos, um grupo de sonhadores da democracia decidiu lançar um golpe civil/militar contra o Estado Novo. Costumavam reunir em casa de um major do exército, já falecido como a maioria dos conspiradores.
Nas vésperas do golpe, estavam eles reunidos, à noite, em casa do tal major, eis que alguém não previsto bate à porta.
Ai, que é a PIDE!
Mas não era. Era uma coisa parecida: o capitão Vasco Gonçalves vinha apoiar o golpe na sua qualidade de representante da célula do PC no exército.
Nessa mesma madrugada, os conjurados foram todos parar a Caxias.
Conto a história como me foi contada. Julgo que ainda haverá quem a confirme.
Verdade verdadinha é que nunca tentativa alguma de derrube do Estado Novo foi apoiada pelo PC.
Antes pelo contrário. Conforme expresso em vários escritos clandestinos da época, todas essas tentativas foram classificadas pelo partido soviético como “manobras” com as quais o “povo” não tinha nada a ver, e tão só destinadas a perpetuar a “exploração capitalista” através da instauração da “democracia burguesa”.
O PC achava que ainda não estavam criadas as “condições objectivas” para a tomada do poder pelo proletariado, sendo por isso melhor deixar apodrecer o “fascismo” que apoiar aventuras que, no fundo, outro objectivo não tinham que o de abrir a porta ao imperialismo e à exploração sob novas formas, isto é, adiar, quem sabe se para sempre, a tomada do poder pelas “classes trabalhadoras”, isto é, pelo PC. Mesmo quando um seu militante colaborou numa intentona “burguesa”, em Beja, o PC apressou-se a dizer que a não tinha nada a ver com a impensada atitude do homem.
Veio o 25 de Abril. O PC, já firmemente incrustado nas Forças Armadas, achou que era chegada a altura de avançar, ou que, dado o triunfo do golpe, outra solução não havia que não fosse a de tentar apropriar-se dele.
Num dia qualquer entre o 25 de Abril e o 1º de Maio de 74, o camarada Cunhal desembarcou, glorioso, em Santa Apolónia. Porque não veio de avião? Dizem santas almas que o homem tinha medo de voar. Não me parece. O que o homem fez, em teatral representação, foi recriar a chegada triunfante de Lenine a São Petersburgo, em 1917, com o partido inteiro à sua espera. Uma chegada plena de significado.
Depois… depois foi o que se sabe.
Sabe-se, por exemplo que foi preciso vencer o PC para que fôssemos livres. Com o sacrifício da vida de centenas de milhares de pessoas por esse mundo fora, é certo, mas cá estamos.
O PC nunca teve fosse o que fosse a ver com a liberdade dos portugueses. Pelo contrário, tudo fez, e faz, para acabar com ela, vestindo as vestes que os tempos forem impondo, mas sempre na esperança de que venha o dia da chegada, melhor dizendo, do regresso ao poder. Usando a rua, as “vanguardas”, as hostes dos sindicatos-às-ordens, o que for, mas sempre contra a maioria, que outra forma jamais houve de implantar o seu poder.
Vem esta arenga a propósito de uma nova associação “cívica”, com trezentos fundadores, que anunciou a sua institucionalização. Chamar-se-á “ACR – Associação das Conquistas da Revolução”. Nela militam altas figuras do PREC, tais que o tristemente celebre Duran Clemente, o aparatchik José Casanova, o obscuro militante da “Intervenção Democrática” – seja lá isso o que for – Corregedor da Fonseca, um tal comandante Begonha – quem será? -, aos quais se presume se juntem os outros 296.
O grupelho, para já uns cem, lançou ontem a nova organização mediante sentida romagem de saudade ao túmulo do general Vasco Gonçalves, um estalinista tresloucado que incendiou Portugal em 1974/75.
Não tenho dúvidas de que Portugal, no futuro, chegará à conclusão que este homem (Vasco Gonçalves) estava certo, disse o comandante Begonha. Lapidar.
A partir deste acto fundador, o PC vai ter mais uma organização para apoiar as suas actividades de rua, em conjunto com mais uma centena delas, existentes ou não, mas sempre presentes em manifestações “unitárias”.
Rapidamente, o PC dará ordens aos seus militantes para se filiar na ACR. Não mais que uns mil, para não dar muito nas vistas. Arranja-se sempre mais uns tantos, ou tontos, para compor o ramalhete. Atingidos, digamos, uns três ou quatro mil, terá chegado a altura de pedir, ou exigir, o estatuto de utilidade pública, a fim de que a coisa fique isenta de impostos e apta a não apresentar contas por aí além. Para além, é claro, de passar a pedir uns subsídios ao Estado, como é de uso.
Lá chegará o momento em que o PC meterá nas listas de deputados alguns “independentes” da ACR, para dar um ar “pluralista”.
Uma nova estrela se veio juntar à constelação estalinista. Para defender a liberdade, isto é, as conquistas da revolução – sabe-se a que revolução e a que liberdades se referem – e para fazer, de vez em quando, umas romagens aos heróis da ditadura do proletariado.
Gente fina.
12.6.11
António Borges de Carvalho

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