Há umas dúzias de frases feitas que, se excluirmos a parlapatice ideológica dos pitecantropos do PC e do BE, sintetizam aquilo de que o país precisa.
É de caras dizer que precisamos de encolher o Estado e o dignificar com as funções que lhe dizem respeito, tirando-lhe as outras.
É de caras dizer que é preciso desmantelar a teia de fundações, empresas, entidades, comissariados e outros parasitas que nos tolhem os movimentos e vivem à nossa custa.
É de caras afirmar que o SNS tem que ser tendencialmente gratuito, mesmo esquecendo que nunca foi gratuito e que é pago por impostos paralisantes.
É de caras dizer que as PPP’s têm os dias contados e que os interessados terão que cortar as unhas.
É de caras dizer que é preciso acabar com as nomeações políticas para cargos públicos.
É de caras dizer que as leis do trabalho têm que ser alteradas de forma a acabar com os falsos recibos verdes e com as mordomias dos “empregos para a vida”, abrindo o mercado a quem dele precisa, trabalhadores e empregadores.
Tudo isto, e muito, muito mais, dirá toda a gente que se preza e que tem uma noção do buraco em que estamos metidos. O amigo banana não diria outra coisa, nem de outra coisa se lembraria o storyteller Tavares, seu colega de eleição e proveito.
O problema não é o de saber o que fazer, é o de pensar como fazê-lo, saber fazê-lo e ter força para o fazer. Já!
Como se endireita a Justiça sem poder esperar a mais leve sombra de cooperação por parte dos seus agentes, acantonados por trás de sindicatos a quem nada interessa que não seja os seus privilegiosinhos?
Como se põe ordem na saúde sem ferir os interesses das corporações e dos sindicatos?
Como se faz para “despedir” os milhares de empregados das organizações parasitárias?
Como acabar com as “comissões de serviço” dadas aos boys, se tais comissões passaram a “direitos adquiridos”?
Como endireitar o ensino, se os seus agentes se acoitam por detrás de organizações aberta ou disfarçadamente ao serviço da extrema-esquerda?
Como encontrar os equilíbrios entre a fiscalidade e os problemas da economia?
Como acabar com os papéis, as tramóias camarárias ou as gorjetas que continuam a ser a única forma de resolver os problemas do cidadão?
Os “como” serão tantos como as frases do amigo banana. Aos milhares.
Ou seja, o novo governo, se o eleitorado acabar de vez com o horripilante cancro conhecido por Sócrates, terá uma ciclópica tarefa à sua frente.
Não é só cumprir as regras que a incompetência socialista e o FMI/EU/BCE/Mercados impõem. Isso até talvez seja possível.
Muito para além disso, o fundamental será pôr a funcionar uma sociedade esquecida de si própria, afogada em “direitos” sem reconhecer obrigações nem limites, atolada em subsídios, desresponsabilizada, entregue ao imediato, negando o futuro, sem perspectivas nem objectivos, sem consciência de si, sem fé noutra coisa que não seja desenrascar cegamente e depressa.
Dito de outra forma, o maior problema da Nação é ter um povo, todos nós, que foi habituado pelo Estado a ter dele a noção de uma espécie de padrasto rico a quem compete colmatar as lacunas e resolver os problemas. Todos somos vítimas, no mais íntimo de nós, de muitas décadas de socialismo, do socialismo autoritário da Segunda República ao socialismo constitucional da Terceira que o senhor Pinto de Sousa e aquilo em que transformou o seu partido empolaram ad nauseam, no exercício técnico-propagandístico de um poder arrogante e estúpido – não o é sempre o socialismo? – e totalmente destituído de critério político, de sentido de Estado, de conhecimento social, de preocupação outra que não fosse o exercício do poder e a afirmação do caudilho.
Já que não é possível mudar de povo, já que o povo vive mergulhado no mar de vícios que o socialismo lhe ofereceu como quem “oferece” drogas duras, teremos que ser nós a renegar o padrasto e a lutar pela vida.
Dirá quem assiste, por exemplo, às manifestações contra a precariedade, às inanidades políticas dos garotos do M12M, às farras dos meninos do Rossio, às greves da TAP ou da CP, aos preparativos do PC e quejandos para a “luta” na rua, às guerras da avaliação dos “professores”, que o que acima escrito fica não passa de wishful thinking do IRRITADO, e que não há nada a fazer, a não ser esperar serenamente pelo fim.
Terá razão. Mas… que mais nos resta senão wishfull thinking?
*
Este texto é escrito mais ou menos hora e meia antes de se começar a saber quem ganha as eleições.
Se o senhor Pinto de Sousa vencer, então meus amigos, nem a mais ténue sombra de esperança nos restará. Ficaremos entregues à camarilha que nos arruinou, sem escrúpulos nem respeito pela nossa dignidade.
Se não… abram garrafas, toquem buzinas, tenham, pelo menos, um grande momento de alegria.
Não será a ressurreição do país, mas, pelo menos, teremos hipóteses, fracas ou fortes segundo cada um, de voltar a ser gente e de deitar fora esta angústia de nos sentir vermes sem alma nem valia, comandados por um canalha sem valia nem alma.
5.6.11, às 18,28
António Borges de Carvalho

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