A moral do mundo mudou. Nos hábitos sociais tudo é diferente, nas relações entre as pessoas quase tudo passou a ser bem-vindo.
As meninas, sem limites, remorso ou sanção, entregam-se, de tenra idade, a quem lhes dá na gana. Meninos há que fazem o mesmo. Toda a gente chama “sair” a ir, depois da meia-noite, embebedar-se num qualquer buraco, sendo o objectivo da “saída” não divertir-se mas embebedar-se. Os adultos deixaram de se casar, passaram a juntar os trapinhos como, há cem anos, se fazia na província quando se não tinha dinheiro para pagar ao padre. Os chamados homossexuais, esses, eles(?) e elas(?), insistem em chamar casamento às suas junções, e a sociedade civil acha muito bem. Nas revistas “sociais” é ver as “famosas” e os “famosos” a trocar de parceiro todas as semanas e a gabar-se disso como larga cópia de compreensão, admiração e quase unânime aplauso. As mamãs e os papás levam criancinhas e jovens de ambos os sexos a programas de televisão destinados a meter nas cabecitas, algumas inocentes, as mais desvairadas ilusões sobre mundos de fama e moderna “felicidade”. É vê-los embevecidos a aplaudir as façanhas dos pequenos, as mais das vezes sabendo onde os estão a meter. E mais não digo porque já chega.
Ao contrário do que se possa pensar, o IRRITADO não trás estas coisas a lume para as condenar. Verifica, ou constata – como se diz agora – o que se passa, a condescendência moral da sociedade para toda uma série de práticas que soíam ser de esconder ou de evitar.
A tolerância, aplicada com novos critérios, invadiu a espécie na sua zona dita mais “civilizada”. O que era criticável (intolerância!) passa a ser digno da ambição de uns e do aplauso de outros.
Esta “filosofia” não se aplica, porém, a toda a gente. Há pessoas que, submetidas ao politicamente correcto – um dos maiores horrores da nossa idade -, são vilipendiadas na praça pública se se meterem nalguma das actividades que, para outros, são consideradas dignas da mais aberta estima social.
Não é imaginável, por exemplo, que um homem como Winston Churchill pudesse, nos nossos dias, ser primeiro-ministro. Quê? Um tipo que bebe conhaque em quantidades apreciáveis e fuma como uma chaminé pode ser primeiro-ministro? De forma alguma. Numa sociedade em geral fumadora e bêbeda, não se toleram coisas destas aos “escolhidos”.
O senhor Berlusconi, por exemplo, um dirty old man independentemente de ser mau ou bom primeiro-ministro (mais de metade dos italianos acham que é bom), é universalmente condenado porque gosta de festanças com raparigas e, sobretudo, porque contratou para elas uma vacalhona ordinaríssima e repulsiva que, instigada pela mãe, se vende a quem pagar. Isto, independentemente de se ter metido, ou não, nela ou com ela (é pouco provável que, com 72 anos, se tenha metido nela). O problema é que a meretriz estava “à beira de fazer 18 anos”, o que acrescenta à coisa um piquinho de piripiri moralístico-legal. E, como a rameira é marroquina, só falta alegar que o fulano pratica o anti islamismo primário. Algo me diz que, se se tratasse de rapazinhos europeus, o politicamente correcto acharia muito bem.
Longe do IRRITADO defender as práticas pessoais do cavaliere. O homem nem o sentido do ridículo deve ter!
Muito menos acha o IRRITADO que os divertimentos do transalpino septuagenário sejam próprios de um primeiro-ministro, bom ou mau enquanto tal.
Mas acha inacreditável e repugnante que a filosofia e a moral em vigor se tornem selectivas quando interessa abater um alvo, ou seja que têm critérios duplos segundo quem está em jogo, ou seja que o politicamente correcto de correcto nada tem.
31.1.11
António Borges de Carvalho

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